quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Alucinação.

"Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais, a minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é experiência com coisas reais..."

Um pequeno pedaço do universo desprendido do todo. Pela janela do carro vejo um milhão de pessoas em seus cotidianos, em suas histórias dignas de romances, em suas pequenas alegrias e seus momentos de êxtase. Quando foi que perdi dentro de mim a chave que me ligava ao mundo a minha volta? Me sinto tão destoante, tão distante, tão diferente e no mais infinitamente igual. Não, eu não quero um tratado geral sobre as certezas do porvir. Quero apenas o silêncio do amanhecer, alguma canção pra sorrir, meus pés na água rasa do mar, um pouco de vento e paz. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

2.

"quatrocentas horas num trem parado fora dos trilhos..."

Dando voltas em círculos concêntricos, onde o fim é o eterno começo. Precisei de dez anos da minha vida para perceber o eterno padrão que se repete. Por horas estive no centro, outras horas estive como espectadora. O espetáculo que se repetiu por todos esses dias, eu rodando em círculos no imenso deserto da minha solidão.  Entre nascer e pôr de sóis perdi a velha mania de acreditar nas promessas tão cheias de nada que de alguma forma me preenchiam. Quebrei os espelhos da casa, não tenho medo da má sorte, não tenho medo da morte. Ainda assim sou a mesma menina que carrega dentro do peito todos os sonhos do mundo e um pouco de alguém que nunca existiu.

colônia del sacramento, uruguay.
《2014》

segunda-feira, 24 de julho de 2017

1

De quando tudo se transforma. Todo o significado. Toda a significância. Tudo o que houve antes se perdeu no Tempo e no espaço, e o que restou não ilustra nem um livro, nem um desenho. Como um furacão que destelha casas e leva embora toda a estrutura de uma vida, para simplesmente dar a oportunidade de recomeçar, do zero, do nada. O impacto é maior que uma batida na velocidade da luz. Desintegra, desintegrou, tudo o que eu conhecia, tudo o que eu tinha como conceito. Hoje me encontro despida de mim mesma, hoje me encontro no centro do mundo, no meio da tempestade, no olho do furacão.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sentimento sobre ser.

Sou barco que navega mar aberto, sem âncora, porto ou cais.
Baixo o céu alaranjado, de infindos nascer e por de sóis.
Sou o vento que empurra a vela.
E que quando tempestade parte ao meio árvore perene.
Sou a brisa que passeia por cabelos.
Sou o sopro divino criador.
Sou a gota que esborra o copo cheio.
Sou a água que segue em correnteza.
Sou a queda que no abismo se condensa.
Sou a onda que afoga o traidor.
Sou a sombra que da luz resplandece.
Sou o raio que se espraia da janela.
Sou o claro clarão da lua cheia.
Sou o sol que a vista enceguece.
Sou o som, o silêncio e a serpente.
Sou o que explode e também o que sossega.
Sou o jorro liquido do sêmen em contato com a água fecunda do ventre.
Sou a semente que do fim tudo recomeça.

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Luiza Durand, 02/11/2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Sobre (re)começos.

Aprender a juntar os pedaços.
Aprender a guardar as palavras.
Aprender a perdoar os erros.
Aprender a celebrar os acertos.
Aprender a aprender sempre.
Aprender a sorrir.
Aprender a chorar.
Aprender a ouvir.
Aprender a calar.
Aprender a juntar os pedaços.

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"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim"

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O último dia.

A noite em claro. O dia quente que amanheceu chuvoso.
Mais uma vez o último dia.
Ainda assim dia de celebrar.
Nunca mais nessa vida terei novamente essa idade.
O tempo passa por mim, e eu me deixo levar por ele.
Sempre é Tempo de Recomeço.
Diante dele tudo é Recomeço.
Tudo é.

Recomeço.


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"Eu sou o início, o fim, e o meio"

domingo, 10 de julho de 2016

Conheço o meu lugar.

O meu lugar é dentro do coração do mundo, dentro das veias abertas da América Latina, dentro de todos os rios que correm para o mar. Ainda guardo dentro do peito todos os sonhos do mundo, e um pouco de alguém que nunca existiu.
Os dias passam de uma forma tão veloz, que há pouco eu tinha meus vinte e poucos anos, e bem sei que amanhã ao abrir os olhos terei chegado aos oitenta, ou até passado disso, é bem capaz.
Sou como Ursula Iguaran, do alto de seus mais de cento e vinte anos vividos, e das gerações de Aurelianos e Arcádios que ajudou a vir a luz, e a criar. Um dia ela percebeu que o mundo dava voltas redondas, e encontrou o verdadeiro motivo de tanta vida num sobressalto que Amaranta assustada pensou se tratar de um escorpião.
O coração, eis o que Ursula constatou, o coração, e não a cabeça, é o que realmente sustenta uma vida inteira vivida e sentida como a dela foi, e como a minha se torna a cada dia mais.


"Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!"

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Referências:
Cien Anõs de Soledad - Gabriel Garcia Marquez
Conheço o meu lugar - Belchior

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pequeno Mapa do Tempo.

Entre o som e o silêncio encontro a metade de mim que nunca existiu. Aquela metade tão falada, tão idealizada, tão grande e tão pequena, aquela metade de mim que não há de existir. Porque não sou feita de metades. Descobri há muito tempo o quanto sou inteira, e por ser tão, sou sertão, sou seca, solo rachado, e ao mesmo tempo a alegria que brota da chuva miúda que cai trazendo novas esperanças. Aprendi a nascer de novo todos os dias, e como me disse Gabo outro dia, "los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga otra vez y muchas veces a parirse a sí mismos"*.
Meu pequeno mapa do Tempo, é feito de todas as histórias que me chegaram, e que construí ao longo dos anos. Porque não sou feita de átomos, sou cosida de histórias, músicas e fotografias. Sou, sem saber o que poderia ter sido, mas ainda assim sou, a intempérie e a bonança, a luz e a escuridão, o abismo e a corda bamba.
Agora faz sol lá fora, e milhares de pessoas seguem seus cotidianos, enredadas nas tramas e nos dramas de cada individualidade, e eu sou todas essas pessoas juntas. Há muito tempo, fui cento e cinquenta e uma mil pessoas ao mesmo tempo, hoje sou todas as pessoas do mundo, e mais do que isso, eu sou ninguém.


"eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão [...] faca de ponta e meu punhal que corta e o fantasma escondido no porão"

A questão é que esta porta, eu já escancarei há muito tempo.


* El Amor en los Tiempos del Colera - Gabriel Garcia Marquez
Pequeno Mapa do Tempo: https://www.youtube.com/watch?v=cUjXiV6Fnwc

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sobre.

não, não sou mais o passado, o que ficou pra trás, muito menos sou o futuro que ainda não e nem e nunca acontecerá.
eu sou o agora.
este exato instante em que escrevo.
este exato instante em que respiro.
este exato instante eu sou.

eu não sou o que dizem, também não sou o que falo. sou mais o que calo, e o que ardo.
sou semente por um curto espaço de tempo, pois estou sempre morrendo e germinando.
eu não existo. insisto.
não sou meu retrato (auto), muito menos aquele quadro azul que foi pintado.
sou o desmantelo de carlos (pena filho).

eu sou a água que envolve e mistura o meu corpo no banho em casa ou no rio ou no mar ou na chuva.
eu sou o que eu nunca saberia descrever, porque só sei sentir (e muito).
sinto tanto que as vezes esqueço de (vi)ver.
e por vezes vivo tanto que as vezes esqueço de sentir.

e não me canso, me acabo.
e findo o dia, varo a noite, e me descubro novamente me cubro.
e me mexo, paro, descanso, corro, morro e nasço.

todo dia é o início, o meio e o fim.
todo dia é o primeiro, o último, e o pra sempre.
ontem não existe mais, amanhã não existe ainda (e talvez nunca venha a tal)
tudo o que há.

é presente.

-
lua durand

quinta-feira, 3 de março de 2016

Pequenos momentos de completude.

"- Você é louca.
- Não, você não é louca. Você é o azul do céu, e o azul do céu é você."
(conversa comigo mesma)

-

Muitas perguntas e tão poucas respostas. A mente mente. A mente engana e infla o ego, e o que mais houver. É um esforço diário e constante para buscar o equilíbrio. A mente mente, e tenta toda hora me falar algo do passado (que não existe mais), ou projetar algo do futuro (que não existe ainda, e provavelmente o que foi projetado não existirá). Tudo o que temos é o presente, é o instante do agora, é esse segundo ou milésimo, e não o que passou, ou o que passará. O agora é o real e o vivivel, e apenas isso. E  nos muitos agoras de um dia inteiro, é possível perceber tudo aquilo que não vemos.
Hoje eu vi o céu azul, justamente quando um pensamento avulso me assaltava a mente, tentando enceguecer meus olhos para que eu não visse o céu. 
Mas o azul, a imensidão azul foi e é mais forte. E naquele momento, senti que eu era o azul do céu, e descobri que o azul do céu sou eu.
Porque sim, eu sou sagrada, e sou (um pedaço de) Deus.