domingo, 10 de julho de 2016

Conheço o meu lugar.

O meu lugar é dentro do coração do mundo, dentro das veias abertas da América Latina, dentro de todos os rios que correm para o mar. Ainda guardo dentro do peito todos os sonhos do mundo, e um pouco de alguém que nunca existiu.
Os dias passam de uma forma tão veloz, que há pouco eu tinha meus vinte e poucos anos, e bem sei que amanhã ao abrir os olhos terei chegado aos oitenta, ou até passado disso, é bem capaz.
Sou como Ursula Iguaran, do alto de seus mais de cento e vinte anos vividos, e das gerações de Aurelianos e Arcádios que ajudou a vir a luz, e a criar. Um dia ela percebeu que o mundo dava voltas redondas, e encontrou o verdadeiro motivo de tanta vida num sobressalto que Amaranta assustada pensou se tratar de um escorpião.
O coração, eis o que Ursula constatou, o coração, e não a cabeça, é o que realmente sustenta uma vida inteira vivida e sentida como a dela foi, e como a minha se torna a cada dia mais.


"Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!"

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Referências:
Cien Anõs de Soledad - Gabriel Garcia Marquez
Conheço o meu lugar - Belchior

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pequeno Mapa do Tempo.

Entre o som e o silêncio encontro a metade de mim que nunca existiu. Aquela metade tão falada, tão idealizada, tão grande e tão pequena, aquela metade de mim que não há de existir. Porque não sou feita de metades. Descobri há muito tempo o quanto sou inteira, e por ser tão, sou sertão, sou seca, solo rachado, e ao mesmo tempo a alegria que brota da chuva miúda que cai trazendo novas esperanças. Aprendi a nascer de novo todos os dias, e como me disse Gabo outro dia, "los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga otra vez y muchas veces a parirse a sí mismos"*.
Meu pequeno mapa do Tempo, é feito de todas as histórias que me chegaram, e que construí ao longo dos anos. Porque não sou feita de átomos, sou cosida de histórias, músicas e fotografias. Sou, sem saber o que poderia ter sido, mas ainda assim sou, a intempérie e a bonança, a luz e a escuridão, o abismo e a corda bamba.
Agora faz sol lá fora, e milhares de pessoas seguem seus cotidianos, enredadas nas tramas e nos dramas de cada individualidade, e eu sou todas essas pessoas juntas. Há muito tempo, fui cento e cinquenta e uma mil pessoas ao mesmo tempo, hoje sou todas as pessoas do mundo, e mais do que isso, eu sou ninguém.


"eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão [...] faca de ponta e meu punhal que corta e o fantasma escondido no porão"

A questão é que esta porta, eu já escancarei há muito tempo.


* El Amor en los Tiempos del Colera - Gabriel Garcia Marquez
Pequeno Mapa do Tempo: https://www.youtube.com/watch?v=cUjXiV6Fnwc

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sobre.

não, não sou mais o passado, o que ficou pra trás, muito menos sou o futuro que ainda não e nem e nunca acontecerá.
eu sou o agora.
este exato instante em que escrevo.
este exato instante em que respiro.
este exato instante eu sou.

eu não sou o que dizem, também não sou o que falo. sou mais o que calo, e o que ardo.
sou semente por um curto espaço de tempo, pois estou sempre morrendo e germinando.
eu não existo. insisto.
não sou meu retrato (auto), muito menos aquele quadro azul que foi pintado.
sou o desmantelo de carlos (pena filho).

eu sou a água que envolve e mistura o meu corpo no banho em casa ou no rio ou no mar ou na chuva.
eu sou o que eu nunca saberia descrever, porque só sei sentir (e muito).
sinto tanto que as vezes esqueço de (vi)ver.
e por vezes vivo tanto que as vezes esqueço de sentir.

e não me canso, me acabo.
e findo o dia, varo a noite, e me descubro novamente me cubro.
e me mexo, paro, descanso, corro, morro e nasço.

todo dia é o início, o meio e o fim.
todo dia é o primeiro, o último, e o pra sempre.
ontem não existe mais, amanhã não existe ainda (e talvez nunca venha a tal)
tudo o que há.

é presente.

-
lua durand

quinta-feira, 3 de março de 2016

Pequenos momentos de completude.

"- Você é louca.
- Não, você não é louca. Você é o azul do céu, e o azul do céu é você."
(conversa comigo mesma)

-

Muitas perguntas e tão poucas respostas. A mente mente. A mente engana e infla o ego, e o que mais houver. É um esforço diário e constante para buscar o equilíbrio. A mente mente, e tenta toda hora me falar algo do passado (que não existe mais), ou projetar algo do futuro (que não existe ainda, e provavelmente o que foi projetado não existirá). Tudo o que temos é o presente, é o instante do agora, é esse segundo ou milésimo, e não o que passou, ou o que passará. O agora é o real e o vivivel, e apenas isso. E  nos muitos agoras de um dia inteiro, é possível perceber tudo aquilo que não vemos.
Hoje eu vi o céu azul, justamente quando um pensamento avulso me assaltava a mente, tentando enceguecer meus olhos para que eu não visse o céu. 
Mas o azul, a imensidão azul foi e é mais forte. E naquele momento, senti que eu era o azul do céu, e descobri que o azul do céu sou eu.
Porque sim, eu sou sagrada, e sou (um pedaço de) Deus.

 


domingo, 31 de janeiro de 2016

Sobre sentir: Saudades.

O dia hoje está bonito, mas não mais bonito do que o dia em que você se foi. Aquele dia em que te levamos para o mar, e tu se misturasse com todas as águas do mundo, e nós sorrimos e choramos ao mesmo tempo, porque ali, naquele lindo dia, naquele único momento, de uma vez e para sempre você estava em nós, e nós estávamos em você, e assim ficará até o fim dos dias nossos, nós que ficamos aqui.
A saudade que ficou vez ou outra me faz rir, lembrando das coisas boas que vivemos nos últimos vinte e cinco anos passados, e as vezes me faz chorar, não de tristeza exatamente, mas de ausência, uma ausência tão presença que para mim parece que você está aqui, e que a qualquer momento vou te ver.
Hoje, hoje era um dia certo de te ver. Hoje completaríamos um ciclo. Hoje você faria 90 anos, e eu sairia correndo com flores, alguma lembrança ou tão somente um abraço, pois o que realmente importa estaria dentro desse abraço.
Hoje ainda assim é momento de celebrar e agradecer, agradecer ao acaso, a Deus, ou ao destino, a oportunidade de ter te conhecido, e de alguma forma, ter nascido através também de você, pois você gerou alguém, que me gerou.

Todas essas palavras são apenas saudade (mas não dói em mim, tá?)
Tenho plena certeza que ainda vamos nos encontrar, e todo o tempo que levará para isso acontecer, será no fim, apenas segundos, perto da eternidade que ainda há pela frente.


Luiza.
Luiza's (90 e 25 anos)
31 de Janeiro de 2016.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

1.2016


Quero escrever a minha história, mas não tenho lápis, caneta ou papel. Penso em tudo o que vivi até aqui e vem a mente tantos momentos dos quais poderiam virar filme. Revejo as pessoas que passaram por mim, desde a mais tenra idade até a menininha que eu vi hoje no ônibus a caminho da casa de minha mãe.
A trajetória da minha vida me levou a quem sou hoje, e não eu não voltaria atrás e mudaria algo, pois se isso eu fizesse, seria qualquer outra pessoa e não exatamente quem sou hoje.
Na verdade, bem sinceramente, queria ter ido embora em Novembro, junto com ela. Tudo ainda dói, mas não é tristeza o que me consome, é um vazio fixo e sem rumo. É um olhar para dentro e para fora, para cima e para o nada e perguntar bem alto qual o sentido de tudo. Se é acordar todos os dias e viver dentro de uma rotina sistêmica que mesmo quando fazemos algo fora do script ainda assim não escapamos da rotina da vida. É questionar se é a máxima da natureza (humana e animal), nascer, crescer, se reproduzir e morrer (e mais alguma coisa no meio do percurso).
O fato é que ando bem cansada, do mais do mesmo, e do mesmo do nada. O que ainda um pouco me salva é a literatura, que não leio, e sim devoro. Bebo as palavras escritas por outrens, janto parágrafos escritos a mil anos e degusto a poesia escrita em versos por um bêbado qualquer.
Repito mil vezes um verso de Pessoa "tenho em mim todos os sonhos do mundo" mas sempre acrescento: e um pouco de alguém que nunca existiu. Eu sou essa pessoa que nunca existiu, porque todos os dias ao levantar a minha cabeça do travesseiro, eu me invento e reinvento, e arrumo alguma desculpa, alguma mentira e alguma verdade para me convencer que vale a pena continuar.
Como já disse, não, não estou triste. Só colocando pra fora, um pouco do caos particular do meu universo intimo e solitário. Porque sim, eu  trago nos olhos e na alma, a sina de uma vida de Cem anos de Solidão.

p.s.: todo dia eu me convenço de que ainda há esperança.

sábado, 28 de novembro de 2015

Sobre sentir (saudades).

Chove em gotas miúdas do lado de fora da casa do Tempo. Do lado de dentro vejo minha vida inteira passando como um filme. Um filme que tem começo  e meio, mas nunca parece chegar o fim. Tenho a alma livre e solta, e sei que posso ir embora a qualquer tempo, eu não estranharia, morrer não dói, e é sim a única certeza que existe.
No filme da minha vida vejo tudo. Até o que eu não vivi. Repito mil vezes os momentos felizes que passei em dias de sol aberto na beira do mar. Éramos crianças felizes, apesar de tantos pesares. A vida era simples e se sorria.
Quero gravar todos os detalhes dos dias que passei junto a ela, daquelas tardes mornas em que eu brincava no seu jardim e ela sempre me chamava para enfiar pela milésima vez a linha na agulha da máquina, que sua visão de tão gasta, não chegava mais para isso.
Quero morar novamente naquela casa amarela da minha infância, e ficar para sempre naquele abraço apertado, naquelas conversas no terraço, de quando eu ouvia de sua juventude distante no interior do Ceará.
O mundo me é estranho sem você aqui, mas continuo, caminhando devagar e sem pressa, um dia depois do outro, registrando na alma as coisas belas que vejo pelo caminho, sentindo que tu as coloca para mim.
Se por ventura ou sina eu chegar a tua idade, saberei um pouco, só um pouco, de tudo o que tu sabia e guardasse, do alto dos teus oitenta e nove anos, eu, aqui com meus vinte e cinco acho que já vivi tanto, mas sei que tenho que seguir.

"...E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza..."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

1

Estive na esquina do mundo. Onde o tempo se torna liquido, o vento se torna solido, o coração evapora, e a saudade chove em gotas miúdas.
Estive parada na praça do Tempo, na Times Square da metrópole recifense, onde tudo se encontra, e todos seguem o mesmo caminho.
Estive vagando por corredores infindos. Onde tudo se mistura e o passado vira futuro, e o futuro vira presente. Eu vi o Recife de Carneiro Vilela, com a emparedada da Rua Nova, o sogro de Favais debruçado na Rua da Aurora, num casarão aceso de outra época. Vaguei na madrugada empoeirada no largo da Rua dos Pescadores, e segui para o patio da Igreja de São José do Ribamar. Eu vi aquele que construiu a parede ser conduzido enceguecido na carruagem misteriosa. Eu vi Clotilde sofrendo a sua ultima sina.
Eu fui Clotilde. Mas nunca amei um certo Leandro Dantas.
Eu vi tudo isso, sentada a beira do Rio que corre em minha alma. Capibaribe, Capiberibe de Manuel Bandeira e de seu Avô.
Da Rua do Fogo vi Divino sair cambaleando do Beco do Veado Branco e cair aos pés de São Pedro, morto depois de quarenta e duas facadas. Vi as prostitutas da Rua Esquerda e os Meninos da Beira do Cais, pranteando o seu corpo numa quarta-feira de cinzas com céu azul, em um tempo que não haveria de ser especificado.
Vi tudo isso dentro e fora de mim, no centro de tudo e no meio do nada. No Recife que habita a minha alma.
Ainda carrego dentro do peito todos os sonhos do mundo, e um pouco de alguém que nunca existiu.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobre o ínicio do Caos.

Estou a beira do abismo. Olho pra frente e só há o infinito. Onde tudo se mistura e eu me perco. O vento passa por mim e vai embora. Estou só e sempre de passagem pelo Tempo. Estou despida de tudo. De valores, versos e sons. Sou o eco do silêncio que grita em minha alma. Estou a beira do precipício, onde tudo se perpetua e acaba. Estou a beira do abismo que se chama minha alma. Posso deixar o corpo leve e então cair em queda livre. Cair não mais importa quando se aprende a levantar. Estou a beira do abismo, e agora já não sei mais, se voo, ou se caio.


terça-feira, 21 de abril de 2015

Auto Retrato com Capa



 * Auto retrato com Capa é o título de um quadro de Picasso.


Hoje me sinto a beira do abismo da loucura. A insanidade que permeia o limiar das paixões. Por não saber lidar com o fogo, e por também ter medo de me queimar, acabo mais ainda atiçando as chamas, que correm pra cima de mim, enquanto eu penso que as afasto. Eu que sempre achei ter a resposta pra tanto e tudo. Eu que sempre achei ser madura e forte o suficiente. Hoje sei que fui vencida, por mim mesma afinal. Pelo meu passado recente e anterior, antes de mim, dessa carne e desse corpo. Meu espírito que em diversos momentos caminha serenamente, ainda não aprendeu a lidar com as potencias que as paixões humanas desencadeiam. Sofro com isso, criando mil situações e cobrando coisas incobráveis. Tudo por querer tudo. Por querer sempre o cheio, e nunca a metade. Por  querer o que explode e não o que sossega.