quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O mundo de nós dois.

O seu mundo preto e branco que não tinha cor alguma. O seu mundo tão silencioso onde não se ouvia um único ruido. O seu mundo tão fechado onde não havia mais ninguém. Até ele chegar. Até ele sorrir. Até ele a encontrar, em um dia a parte, em um lugar qualquer. Onde as palavras que eles falavam não conseguiam ultrapassar a barreira do som ambiente. E mesmo assim o silêncio se fez presente, o silêncio das estrelas, ou do sorriso que estava nos lábios dele. De repente tudo parou, o senhor que vendia pipoca na esquina, o gato que roçava as pernas dela pedindo atenção e também o garçom que nesse momento abria uma bebida na mesa vizinha. Tudo parou. Ele sorria e a olhava, enquanto ela procurava nos postes a luz de algum vagalume a qual pudesse brincar. Ela não notou, ele estava lá. No seu mundo, no mundo dela. Tinha ele ultrapassado a barreira do som ambiente, do silêncio dela e a distância que separava os dois.
Ele estava lá, com ela. Foi ai então que ela o viu. Olhou, pensou e sorriu. O mundo lá fora parado não podia ver a banda que passava no mundo dela, cantando coisas de amor. O mundo que até pouco tempo atrás era preto e branco começava agora a ganhar cores. As cores de um arco-íris que eles veriam sempre que no sol de meio dia tomassem banho na fonte de uma praça qualquer, sem se preocupar com o que o mundo iria pensar. Porque o que realmente importava cabia no sorriso dela, e nos risquinhos da iris dos olhos castanhos dele.

O mundo dela, agora o mundo dele.


terça-feira, 9 de outubro de 2007

Luizas.

Quando me dá saudade fecho os olhos devagarzinho e assim no escuro dos olhos fechados vou seguindo pelo labirinto da minha memória, vendo e revendo tudo o que já passei. E em algumas lembranças sinto uma enorme vontade de parar e ali ficar pra sempre, ou então guardar tudo na palma da mão e segurar bem forte para quando a quimera da saudade passar e eu abrir os olhos e ter diante de mim uma menininha morena dos olhos castanhos e o cabelo que de tão liso não dá uma volta. E ela vai olhar pra mim um tanto assustada e vai se perguntar quem eu sou, e vai olhar para os lados para saber onde está.
O lugar ela vai reconhecer, mesmo sem aquele velho lustre que de noite projetava majestosamente a sombra de suas bolinhas na parede, e que ela por vezes dançava sozinha naquele salão iluminado, confundindo-se na sua própria sombra, ela vai reconhecer. E quando souber onde está vai sair correndo pelas salas, subindo e descendo escadas, procurando o seu bem mais precioso, a sua pessoa mais cara, aquela que ela guardou para sempre no relicário que era o seu próprio coração.
Ela não estava lá, não mais, a menina corre e eu corro atras dela com lágrimas nos olhos pela tristeza que verei refletida nos olhos dela por não achar seu bibelô, sua avó. E também pela tristeza que sinto em meu peito por reviver novamente a cena em que entrei naquela casa correndo no dia em que me foi o mais triste, e na cortina de lágrimas que havia em meus olhos eu via em cada gota salgada um momento que vivi com ela, e ela não estava mais lá.
A busca da menina parou no mesmo ponto que a minha há tempos atrás na porta do quarto de minha avó, de nossa avó. E nós duas na mesma hora encostadas na parede nos deixamos deslizar para o chão junto com as lágrimas que deslizavam em nossas faces. E as duas apertavam os joelhos contra o corpo, para tentar se sentir protegida.
Ela chegou mais perto de mim, aconcheguei-a no meu colo e a abracei, ela segurava minha mão apertando-a, e eu já adulta chorava como uma criança e ela segurando as lágrimas fechou os olhos devagar e fazendo isso eu entrei nas lembranças dela e ela me guiava, assim como eu a guiei nas minhas, até chegar em um lugar bonito e confortável.
Ela me deixou lá com um beijo no rosto e foi ai que eu lembrei o que tinha dito pra ela há muito tempo atrás, era a promessa de não crescer e eu falhei. Ela então me disse que eu ficaria nesse lugar bonito para sempre e ela, ah ela, ela assim nunca iria crescer.
Eu sorri, e depois do meu sorriso ela abriu os olhos, e se encontrava então sozinha na porta do quarto da avó segurando os joelhos sentada no chão, até que sentiu uma mão lhe afagar os cabelos carinhosamente, foi levantando os olhos devagar e o sorriso crescendo a medida que olhava.

- Seu bibelô, seu amor, sua criança ainda estava lá, sua avó.

A felicidade que sentiu naquele momento só as crianças são capazes de sentir, mas eu senti. pois eu também estava lá, dentro dela, eu era ela.

- Ela sempre foi eu. -


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Blasé.

- O Perfume forte, a garganta seca e a consciência de solidão. -

Aquele cheiro que estava impregnado no seu corpo e que de tanto sentir lhe enjoara em demasia, e agora lhe dava nojo, seu próprio perfume. E na garganta o resultado do capricho de um vicio adquirido na saída da infância, o hábito de fumar. O cigarro lhe era uma espécie de alucinogeno e calmante e se assim puder se considerar, a sua droga favorita. Passava na sua cabeça as imagens da juventude, os vários amigos e a vontade de abraçar o mundo, e tudo isso girava numa espécie de turbilhão.
Sozinho, em casa ia de um canto a outro agoniado, queria gritar e não conseguia, até mesmo a sua droga não lhe trazia mas paz. Despiu-se por completo, deitou-se no chão da sala acompanhado da velha arma de seu pai, pela janela o sol ia embora, assim como a juventude, o que não lhe era concebível, depois do último raio e agora com a escuridão um som rascante cortou o ar, uma vida se esmaeceu e no cinzeiro um cigarro inacabado se consumia na própria chama perto de um bilhete que dizia assim:

- Aos 25 eu fui, a vida continua.

Sim ele foi, ninguém notou.

-

Peço desculpas a todos pela ausência.
Muitas idéias, pouca inspiração.
Responderei aos memes e indicações a prêmios e selinhos em postagens futuras.
Obrigada a todos.

Au Revoir

01.10.2007
Lua Durand.