terça-feira, 9 de outubro de 2007

Luizas.

Quando me dá saudade fecho os olhos devagarzinho e assim no escuro dos olhos fechados vou seguindo pelo labirinto da minha memória, vendo e revendo tudo o que já passei. E em algumas lembranças sinto uma enorme vontade de parar e ali ficar pra sempre, ou então guardar tudo na palma da mão e segurar bem forte para quando a quimera da saudade passar e eu abrir os olhos e ter diante de mim uma menininha morena dos olhos castanhos e o cabelo que de tão liso não dá uma volta. E ela vai olhar pra mim um tanto assustada e vai se perguntar quem eu sou, e vai olhar para os lados para saber onde está.
O lugar ela vai reconhecer, mesmo sem aquele velho lustre que de noite projetava majestosamente a sombra de suas bolinhas na parede, e que ela por vezes dançava sozinha naquele salão iluminado, confundindo-se na sua própria sombra, ela vai reconhecer. E quando souber onde está vai sair correndo pelas salas, subindo e descendo escadas, procurando o seu bem mais precioso, a sua pessoa mais cara, aquela que ela guardou para sempre no relicário que era o seu próprio coração.
Ela não estava lá, não mais, a menina corre e eu corro atras dela com lágrimas nos olhos pela tristeza que verei refletida nos olhos dela por não achar seu bibelô, sua avó. E também pela tristeza que sinto em meu peito por reviver novamente a cena em que entrei naquela casa correndo no dia em que me foi o mais triste, e na cortina de lágrimas que havia em meus olhos eu via em cada gota salgada um momento que vivi com ela, e ela não estava mais lá.
A busca da menina parou no mesmo ponto que a minha há tempos atrás na porta do quarto de minha avó, de nossa avó. E nós duas na mesma hora encostadas na parede nos deixamos deslizar para o chão junto com as lágrimas que deslizavam em nossas faces. E as duas apertavam os joelhos contra o corpo, para tentar se sentir protegida.
Ela chegou mais perto de mim, aconcheguei-a no meu colo e a abracei, ela segurava minha mão apertando-a, e eu já adulta chorava como uma criança e ela segurando as lágrimas fechou os olhos devagar e fazendo isso eu entrei nas lembranças dela e ela me guiava, assim como eu a guiei nas minhas, até chegar em um lugar bonito e confortável.
Ela me deixou lá com um beijo no rosto e foi ai que eu lembrei o que tinha dito pra ela há muito tempo atrás, era a promessa de não crescer e eu falhei. Ela então me disse que eu ficaria nesse lugar bonito para sempre e ela, ah ela, ela assim nunca iria crescer.
Eu sorri, e depois do meu sorriso ela abriu os olhos, e se encontrava então sozinha na porta do quarto da avó segurando os joelhos sentada no chão, até que sentiu uma mão lhe afagar os cabelos carinhosamente, foi levantando os olhos devagar e o sorriso crescendo a medida que olhava.

- Seu bibelô, seu amor, sua criança ainda estava lá, sua avó.

A felicidade que sentiu naquele momento só as crianças são capazes de sentir, mas eu senti. pois eu também estava lá, dentro dela, eu era ela.

- Ela sempre foi eu. -


44 comentários:

Hélder, o míope disse...

Nussa!
Viajar pelas lembranças é algo incrível. E pelas boas então, agente tem que se cuidar pra não ficar lá pra sempre...

Hélder, o míope disse...

mó bunito.

subby disse...

eu quase q me senti lá.. vendo "as duas".. e as lágrimas aqui jah estavm pensando em saltar.. engraçado.. minhas emoções foram juntas com a do texto.. tristeza com trsiteza.. lágrima com lágrima.. carinho com carinho, sorriso no final..

e aquela velha vontade de dizer.. vc escreve mto bem. ;)

- JuH - disse...

Aaaah, não faz isso comigo, Lua!

Minha avó é meu amor mais precioso e confesso que farei o mesmo quando ela se for e buscarei incansavelmente os meus vazios cheios de recordações.

Beijo-café-com-queijo.

César Fernández disse...

Que coisa liiinda! *-*

Caramba O_O

Comé que tu consegue fazer cada post ainda mais perfeito que o outro?
\o/

bjoo

[mó dificuldade pra comentar aqui o_o]

menina lunar disse...

o mais incrível é que a Lua sabe transportar a gente pra dentro das emoções dela, e isso é tão magnífico, tão admirável, tão...

nem sei mais.

paz e poesia sempre!
beijo bem grande da fã.

Marco Schiavo disse...

No labirinto das mem�rias, onde tudo � vivo, como no momento vivido. E quando nos deparamos com nossos sonhos, e com as perspectivas de futuro que tinhamos tudo muda. E vemos que crescemos sem levar a alegria de crian�a, aquela que prometemos guardar pra sempre. E fica na mem�ria, pra quando der saudade.
Belo texto Lua.
Parab�ns.

Mariana, perdida em si mesma disse...

Viajar para o passado, para as lembranças de avó, de casa de avó, de infância.. delícia e dor.
Sinto, também, muitas saudades da minha vó. Ela foi uma alegria levada embora muito cedo, muito cedo pra mim.. tarde, talvez, pra ela.
Ah, quantas lembranças tenho também de momentos de dor, de enoctada à parede ir deslizando aos pouquinhos para o chão, tavez imaginando que não teria forças para levantar de novo.

...
Me foi dito a pouco tempo que sempre quando vivo uma coisa,, lembro algo da vida de outra pessoa. Muitas vezes porém quando leio algo da vida de outra pessoa, sou levada às lembranças da minha própria. Parece que eu sempre lembro de algo. As vezes que lembro de mim mesma, porém, parecem que não são as melhores lembranças que Vêm à tona.
Sua menina me pegou pela mão junto pela corrida de vocês.. e me levou de encontro também a uma outra menina aqui.

beijos

O Profeta disse...

Tu és um mar de sentires...um pássaro azul...


Doce beijo

A. fontelli disse...

Acho que até agora o melhor que já li aqui Durand.
Gostei muito, MUITO!

=**

Anayar disse...

nostalgia rima com putaria
mas não têm nada a ver...

beijos lau-leo

Pedro disse...

Lu, vc me fez xorar...
lembrei do meu avô...

parabens pelo texto, magnifico.

Claudia Lis disse...

Oi Lua,

Já não sei se digo que lembrei do meu avô e seus vários costumes, dizeres e manias legais que agora se mostram em outro lugar, ou da minha vó, que ainda aos 92, me conta tantas histórias, ensina tantas coisas e me prepara umas guloseimas deliciosas.

Ah, esse texto faz a gente pensar, lembrar, se emocionar e flutuar com as suas palavras e cenas descritas. Há sempre uma menina dentro de nós capaz de lembrar cada cor, cada flor, cada som, cada objeto, cada cena, cada olhar, e o melhor disso tudo, sob a ótica de uma criança, o que torna tudo muito mais especial.

E sobre não crescer, lembrei-me do trecho de uma canção que gosto muito (da canção e da letra). “Those Final Feet” do Cowboy Junkies:

”You said never to grow old,
But you forgot to tell me how”


=)

Beijões

Rafael Velasquez disse...

eita. Coisa bonita...
muito bem!!! muito bem!!!


inté!

Ch disse...

Quero crer que este texto foi um dos melhores que já li por aqui, sorvendo um bom café de pelar a língua ;]
Instiga a memória, fazendo com que o leitor busque suas próprias lembranças e se emocione com elas.
Gostei mesmo.
Receba o abraço do
Carlos

Alê Namastê disse...

Vamos crescendo e nos transformando, numa velocidade maluca. Resta alimentar nossa saudade com boas lembranças.
"Quando me dá saudade fecho os olhos devagarzinho e assim no escuro dos olhos fechados vou seguindo pelo labirinto da minha memória, vendo e revendo tudo o que já passei."
Eu ando fechando muito os meus olhos.
Beijos*

alexandre disse...

Uma lembrança incrível que me levou junto contigo! Belo texto menina!

Bjs.

O Inexorável disse...

Oi...
Tudo bom?
Muito legal o q vc escreve
Posso add seu blog?
Espero que s
=*

Thiale disse...

nossa...
me lembrou um dia em que percebi que quebrei essa mesma promessa e procurava desesperada pela inocência perdida de uma menininha de olhos sonhadores e cabelos tão finos que nem o vento assanhava.
ainda estou eu aqui a procurar...

lindo!

beijos.
=]

Paulo Bono disse...

muito bacana.
depois do croché, minha vó fazia pão assado pra mim.
abraço

- Júlia disse...

que texto lindo, nem sei oque comentar. ele conseguiu despertar em mim sentimentos, coisas que raros textos fazem em mim .
aiai, que saudade da minha avó :I

THiago RangeL disse...

muito lindo...

contos realmente é o q você faz de melhor..
beijão

você sempre me faz voar sobre as histórias
=*

Palomilla disse...

Que lembranças doces! As minhas também são assim.. Às vezes sinto até medo de lembrá-las, tenho medo de deixar minhas memórias desgastadas, não conseguir lembrá-las com tanta ternura um dia.. Mas nem sei mesmo se eu posso evitar um dia.. Afinal, são lembranças.


Beijos =****

Anayar disse...

foi mal pelo comentário meio (total) sem noção
belíssimo texto. nostalgia. com muita realidade.
beijos filha

Lais Mouriê disse...

Que bela reflexão, Lua! Um passeio belo em tuas lembranças. Obrigada!

Naeno disse...

POR UM TRIZ

Digamos que é querer demais
Que eu seja um espelho teu
Já refleti dormente,
Contente, o nosso amor.
O teu destempero me seduz
Me conduz, me reduz
Ao que sou
E assim já é demais.
Se a até hoje a gente foi feliz
Como quis, por um triz
Pra que destruir a nossa paz.

NAENO

Walt Whitman disse...

como o hélder disse"mó bunito"....rsrsrsrs

eu gostei muito com que intensidade vc expõe as emoções presentes nesse texto.....

além do texto ser "mó bunito", "vc escreve muito bem", como disse a subby...

Anne disse...

Lindo, lindo, lindo! Fiquei até imaginando cada cena, cada pedacinho das lembranças e o cabelinho liso da menininha! Que fofo!!!
Bjos pra vc

Cackau Loureiro disse...

Nossa, me ví no alpendre da casa da minha avó...todos os netos brincando, correndo e ela junto com a gente, era uma festa ficar por lá uns dias!!!

saudades, seu texto está um "Café 3 corações" viu! Top de linha!

bjos

Mustafa Şenalp disse...

Your blog is very nice:)

Fernanda disse...

Que delícia esse encontro consigo mesma. Quanto tempo eu não vinha tomar um cafezinho e me deparo, com um post lindo deste, justamente, nesse dia dedicado às nossas crianças e às crianças que há em nós.

Bjossssss

NeTtO disse...

lindo...ha qnto tempo nao venho aki....
estava eu comendo pao frances com pate, sem nada pra tomar, entao lembrei do cafe....rsrs

otimo...muito bom....

beijos....
:**

Bia Ferreira disse...

Lindo texto com a melhor da conclusões!!!!
beijosss moça

MaxReinert disse...

Eita.... quanto tempo não passava por aqui... aliás... quanto tempo afastado da blogosfera!!!! mas, agora achei um tempinho pra vir provar do seu delicioso café.... hoje, bastante agridoce... como eu gosto!!!
bjzzzzzzzz

ALF disse...

Uma transportação sublime, entoado em doces palavras que parecem canções embalando os corações.

Uma vivência fantástica, uma transfusão de sentimento alforada em cada olahr, em cada respirar.

Profundamente mágico e encantador.

Belíssimo texto minha querida.

Beijos

Gracy disse...

que lindo...mesmo...
assim tão... sei lá
puro

Rafael Velasquez disse...

passei aqui para ver se tinha novidades.

Rogério Felício disse...

Que viagem...amei!
Vou add seu blog ao meu!
Beijoks!

julio de castro disse...

o menino me acompanhou nessa viagem pela cortina-dos-olhos outro dia, e lá naquela velha casinha bege encontramos nosso bibelô. então nós a abraçamos, e lhe falamos da falta que ela já faz.

moça, o neto chorão cheio de saudade acho lindo o seu texto.

abraços.

Enterufter disse...

Só uma coisa a dizer: V-O-C-Ê-E-S-C-R-E-V-E-M-U-I-T-O-!

Viajei, voltei, imaginei, senti,...tudo isso num ínico texto!

Vlw Lua!

O Inexorável disse...

Nossa...muito bom!!mesmo!
Adorei
passa la no meu depois por favor
e vou add vc ok?

paulo dauria disse...

Lua,

Muito bom!
Todos nós prometemos a nós mesmos que não vamos crescer... Me lembro de quando li Peter Pan, achei que ele fosse ser meu herói pra sempre!Mas aí, o dia a dia, o cotidiano, vamos crescendo sem perceber.
O importante é se reencontrar de vez em quando, pra esse café, nos dias tristes, nos dias felizes, nas boas e más lembranças...

Parabéns por este post tão lindo
Grande Beijo
Paulo DAuria

P.S.: Vou linkar o Café na Porta lá no meu blog, ok?

Camila Lemos Barata disse...

Nos braços da minha vó,encontrei os mares da espanha e o calor das tortilhas douradas,que inundavam minha boca de criança.

Lindo texto,querida.
Somos todas as mulheres nossas.

AJLN disse...

Oi lua to add nos favoristos

beijos

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