domingo, 9 de novembro de 2008

Auto-retrato com capa.

O coração para
Enquanto a cidade arde.
De dia.
Pessoas e sorrisos.
Pequenos olhos que não entendem nada.
Existem?
Inocente, sorri para um estranho.
O mundo não é de todo mal.
Não me reconheço no espelho
O retrato borrado que tentei esconder
Ao passo que me vejo,
O café esfria na xícara.
O tempo passa lá fora.
Pessoas.
Á porta, com olhos brilhantes uma menina espera.
Ele não virá.
Não ontem, amanhã talvez.
A vida é agora
Banal.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Amanuel.

Ontem meu Deus,
Fez 40 anos que Manuel foi embora.
Quando aqui eu cheguei,
Manuel já tinha ido.

Ele foi, e deixou pra mim o seu Recife,
O Recife da casa de seu avô.
Quando eu cheguei, ainda tinham as ruas aqueles nomes bonitos que um dia ele tanto exaltou.

Ontem me deu uma saudade assim,
Saudade sentida de Manuel.
Corri por todas aquelas ruas de nomes bonitos, e foi as margens do Capibaribe [Capiberibe] que alguém me disse pra onde ele foi.
E disseram assim:

- E lá foi ele.
Caminhando com passos leves e sorrisos largos.
Deixando para trás o peso da vida em seus pulmões cansados.
Feliz ele foi para Pasárgada,
Por que lá, ele é amigo do Rei.

-

Homenagem singela a um grande poeta conterrâneo meu, o saudosissimo Manuel Bandeira, autor de O bicho, Pasárgada, A estrela, Estrela da manhã, Cinzas das horas, e tantas outras obras de uma beleza profunda, e uma certa melancolia escondida entre os versos.

Ontem (13-08-2008) fez 40 anos de sua morte.

Espero que ele esteja a me esperar, pois um dia irei até Pasárgada, pois lá, também sou amiga do Rei.

- Lua Durand.
Recife, 14 de Outubro de 2008.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Infinito.

As vezes sente vontade de sumir.
Uma vontade intensa de voar, mas é só abrir os braços e até talvez dar um impulso e perceber que não adianta.
Sorri, segue em frente, as outras pessoas não o deixam parar. Talvez por vontade própria teria um dia largado tudo, trocaria o carro importado por uma bicicleta enferrujada, trocaria tudo para pelo menos uma vez ter a plena sensação de liberdade.
Trocaria toda a sua individualidade, para em um dia qualquer, em um lugar qualquer, ao olhar o firmamento poder se sentir pequena parte de um todo feito por alguém infinitamente maior que ele, e assim sorrir agradecido pela beleza do simples.
Talvez tudo o que falte seja apenas coragem, de abrir os olhos, de levantar da cadeira, de deixar tudo pra trás.

terça-feira, 29 de julho de 2008

De volta.

Peço ao motorista para ir mais devagar, quero matar a saudade de cada rua, cada ponte, tento abraçar tudo com os olhos, quero absorver, observar.
Não tenho mais certeza quanto ao endereço, ainda bem que achei ao acaso escrito num pedaço borrado de papel, dentro de uma edição velha do meu livro favorito.
Agora não olho mais pra rua, tento disfarçar o nervosismo, tento acreditar na mentira de que o tempo não passou, que tudo ainda está no mesmo lugar.
O carro para, deixo de lado meus pensamentos mais íntimos, dou uma nota e digo que não preciso de troco, saio com as malas, o táxi parte e eu fico, parado.
O mundo girou e eu nem percebi, procuro as chaves no bolso, deixo as malas na porta e entro.
Não sei se é a saudade ou se é de verdade mas sinto aquele cheiro de café forte sendo coado, saio abrindo portas e janelas deixando a luz entrar, vou até a cozinha com a esperança de que ela esteja lá, não tem ninguém, o cheiro de café era fruto da saudade, ela foi embora dois anos antes, levou o cachorro e a velha TV.
Sento no balcão, ainda posso ouvir seus passos, continuo andando pela casa lembrando cenas antigas de um passado qualquer, vou ao quintal, o jardim continua florido e bem cuidado, corro para o portão sorrindo, tenho certeza que ela vai voltar.

domingo, 8 de junho de 2008

Cotidiano. [estória de uma vida feliz]

O sol sempre saia pela manhã e se punha a tarde. O galo cantava as cinco, mas a vida começava antes das quatro. De fora pensavam que essa vida era difícil, mas era até gostosa, vivendo-a com carinho e dignidade.
Mesmo com os pés gastos e o coração cansado, sorrisos não faltavam não. Mesmo sem luz em casa, ou a tão sonhada televisão, o que sempre sobrava era a imaginação, o que não era nenhum pouco má, para poder contar aos pequenos as estórias de guerreiros e princesas as quais costumavam imitar em suas brincadeiras de infantes.
Aos domingos a missa, os vestidos mais bonitos de cada guarda-roupa iam a capela rezar. A comida na mesa sempre se servia para mais um. O coração de cada um deles era grande. Acredite seu moço, a felicidade também.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Carnaval.

Não faço parte de mim, joguei-me fora junto com as coisas velhas do quarto, junto com a saudade. A máscara de tão pesada tombou ao chão, ao olhar no espelho não consegui saber quem eu era. Só lembro do que fui. Agora apenas fragmentos de quem um dia já foi grande. Hoje não passa de palavras borradas num papel, palavras que no sentido levam junto uma porção de sinestesia.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Desespero.

Pagou a conta, foi embora.
O pôr-do-sol levou junto as cores do arco-íris, a noite a realidade sempre volta, preto e branco.
Fechou os olhos, um turbilhão de tons que sempre acaba com o preto, solidão.
Muitas passaram, nenhuma ficou.
Acostumou-se.
Acomodou-se.
Mais que tudo, desistiu.
A última esperança partiu, no sorriso dela.
Abraço apertado, saudade, ela também passará.
Diferente de todos, cansou.
Fechou os olhos novamente, atravessou a rua, nunca mais voltou.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Remetido pela saudade, destinado a solidão.

O sol queimava a cabeça das pessoas naquela cidadezinha esquecida por Deus. O mesmo sol que por vezes ressecava o coração dela e rachava os lábios de seu pequeno.
Ela, a não sei quanto tempo atrás, que vivera um grande amor, tão curto como o mês de fevereiro, porém tão intenso como o brilho das estrelas que acompanham a lua em noites sem nuvem.
Só se sabe que ele gostava e falava das coisas do mar, e assim como veio se foi. Deixando junto com as juras de amor eterno um endereço borrado num guardanapo de papel e uma semente dentro dela, para florescer na primavera.
A semente virou flor, um lindo menino, com a cor e os olhos do pai. Ela todo mês escrevia cartas para ele e todo dia a tardinha ficava na porta de casa esperando o carteiro passar. E ele sempre passava, por vezes parava, mas nunca era pra ela.
O menino cada vez maior, saudade cada vez maior, lágrimas não tinha mais. O menino levara o nome do pai, apenas o nome, o sobrenome não se sabe onde foi parar.
Todo mês ela ia à velha agência dos correios entregar uma carta, com uma enorme vontade de ir dentro do envelope, junto com o filho, junto com a saudade.
E daquele grande amor, hoje resta uma música, um menino agora homem, e um senhor em algum lugar do mundo que enviava uma carta todo mês para alguém. Mas nunca teve resposta.

-

acaso?

caso.

conto.

contei.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Sentimento.

Dói, por doer dói sozinho.
Machuca, arde, dói.
Destrói.
O sorriso da menina mais bonita.
O sorriso mais bonito da menina.

Lágrimas de dor.
Dor da consciência que tem de si.
Ninguém entende, consegue.
Tentam.

De tanto chorar acabou por desistir.
Ser só para não machucar ninguém.
Se machucar caso machuca alguém.

Vontade de ir embora.
Abrir os braços e deixar a brisa da noite levar, junto com as folhas secas do chão.

Frio, chove.
Chuva e lágrimas.
Água e sal.

Tudo se mistura, ela chove, o céu chora, o sol seca, a brisa vem, ela vira nuvem. [para alguém]