quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Último dia.

- O que você olha?
- A vida que passa.

- Se arrepende?
- Um pouco, talvez...

- E agora?
- Estou em pedaços.

- O que vê?
- Nada.

- O que deseja?
- Um pouco de luz.

- Ainda dói?
- Nunca parou.

- Entendo.
- O que queres?

- Um pouco de paz.
- Entendo.

- [...].
- Até. (levantou-se, saiu, não olhou pra trás.)


-

Enquanto conversavam, a chuva caia lá fora, pessoas e pessoas viviam, sonhavam, sorriam, sem se dar conta de que era agora o último dia.
Ela saiu, não olhou pra trás, faltava agora apenas algumas horas, era o último dia, sabia disso, mais do que qualquer outra pessoa, se sentia só. Deixou tudo de lado, o nome, a vida, a história, queria apenas sentir. Antes de ir, se deixou ficar, vagou pela vida que teve, pelos sonhos que possuiu, pelas lembranças mais felizes. Sorriu, fechou a porta, os olhos, e foi. Não mais voltou.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre Sentir.

Sinestesia. No corpo todo, e com tudo e mais. Sentiu as cores, viu os sons, ouviu as imagens, saboreou as palavras. Chorou todas as lágrimas. Sorriu todos os sorrisos. Amou todas as pessoas. Leu todos os livros. Ouviu todas as músicas. Sonhou todos os sonhos. Viveu. Cansou. Cuidou. Cantou. Voou. Pássaro, passando, passou. Era vários ao mesmo tempo, era um só. O coração pulsava dentro do peito, batia desesperadamente. Queria viver tudo. Todas as possibilidades. Voou tantas vezes. Ao pousar. Carinho, colo, dedos entrelaçados, tênue, voava novamente. E voou, voou, voou. Viveu, sorriu, chorou. Embriagou-se de vida. Ainda assim sentia não ter vivido tudo. Tentou voltar. Pra onde? O passado não existia mais, o futuro não existia ainda. O tempo corria, e ele voava. Olhos fechados, vento. Vôo. Livre. Ar. Ser. Puro. Só. Sonho. Um. Mil. Vento. Vôo. Livre. Sinestesia.

domingo, 6 de dezembro de 2009

2.

Vontades contraditórias passando ao mesmo tempo na mente de uma pessoa. Vontades incontáveis, infindáveis. Vontades. Nada de verdade. Agora tudo tão impossível. Vontade de voltar atrás, e de seguir em frente. De muito pensar acabou ficando parada, no mesmo lugar, na mesma hora, na mesma cadeira, na frente de um computador. Falou algumas coisas, pra algumas pessoas, mas sempre que terminava de falar, que ouvia o tu, tu, tu no telefone, ou fulaninho ficou off-line no msn, ou via a pessoa indo embora, sempre tinha a sensação que tinham mais coisas para serem ditas, mas ela não conseguia dizer. E isso era uma droga. Uma droga, um vício, ou qualquer outra coisa. Não conseguia falar, e isso a incomodava. Eram essas vontades contraditórias. Vontade de ir embora, sair correndo mesmo, ir embora, e uma vontade danada de ficar. E acaba não fazendo nada. A outra pessoa é quem vai, sempre vai. E ela fica. E a vida vai passando. E as pessoas também. E ela fica. Parada, só. Um dia, tomara e talvez quem sabe, ela toma uma atitude. E sai correndo, quando devia sair correndo. E fala o que tinha de ser dito, na hora certa, para a pessoa certa, e não para si mesma no espelho do banheiro. Um dia, quem sabe. Nem ela sabe.

2 - postagens aleatórias.
"...tudo está perdido mas, existem possibilidades, tinhamos a idéia mas você mudou os planos, tinhamos um plano, você mudou de idéia..." [sereníssima]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

1.

O que se faz, quando se tem vontade de chorar? As lágrimas chegavam aos olhos com facilidade, mas ela não as deixava cair. Não, não era vergonha. Era um choro contido. Choro bandido. Escuso. Saudade? Não sabia se isso existia. Corria, por lugares, por de sóis, mares. Corria pela vida. Passado, presente, futuro. Do que viveu, e do que um dia quem sabe viveria. Cansada, não parava ainda assim. Queria chorar, e tinha medo, de que as lágrimas não tivessem fim. A vontade, era desligar o telefone, o computador, os olhos, o sentimento, o coração, a mente. Parar de tudo, inexistir. Vontade de inexistir, inexistir, existir, resistir, desistir, correr, correr, correr. Voltar, juntar o que ficou, o que restou, aquelas velhas fotos preto e branco, ainda não reveladas, juntar as sandálias trocadas, juntar as lágrimas caídas, e seguir.

1 - postagens aleatórias.
"...Pra de manhã, bem de manhã, ser cheio, leve, veia, fala, forma, santo, chão. Ó pessegueiro areja a mansidão do meu soninho. O aprumo do rio é o mar. Na casa mora a rua toda e ainda cabe o dia..." [aclimação - junio barreto]