sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sobre caminhar.

Há vinte anos que ele passa por aqui, por estas mesmas ruas, por estas mesmas pedras. Dias de cabeça erguida, contemplando o sol. Dias se protegendo embaixo de um guarda-chuva. Dias correndo na chuva, dias sorrindo sem sal.
Ontem ele não passou. Então o mundo saiu do lugar. Todas as cores entraram em confusão. Todas as vontades se esvaneceram. Todos os sonhos se tornaram apenas lembranças. O mundo não girou. Ficou parado, como que na expectativa, de sentir sobre ele aqueles mesmos pés, agora cansados, agora leves, agora devagar. 
Os pés não passaram, e em algum lugar do tempo partido, um coração desacelerava dentro do peito, ameaçando parar, e em um rápido momento de lucidez, os olhos se voltaram para a conflûencia de nuvens ao sol. Um último desejo, que não tinha mais sentido em ser, o de virar nuvem, para alguém. Não existia mais alguém, não existia mais os sonhos, todos foram banidos, e o mundo ficou novamente em cores de Chaplin. Mas ainda haviam os sorrisos, ainda que cansados, ainda que borrados, ou até mesmo forçados. Ainda havia força, para caminhar, todos os dias, pelo mesmo lugar. 
Há vinte anos que ele passou por aqui. Construindo no dia-a-dia a força para continuar a caminhar. 
Eu da janela, fiquei esperando ele passar. Não, ele não passou na rua ontem, também não passou dentro. Olhei, olhei, sorri. Ele foi embora. No tempo errado meu, no tempo certo dele. Nos olhos cansados, inexpressivos. Guardados. Guardei as lembranças de vinte anos, dentro de mim. 
Hoje mais uma vez é o último dia, e hoje eu não sinto dor por isso. Tenho a certeza que amanhã vou abrir os olhos, e será o primeiro dia. O primeiro, de um ano inteiro. O primeiro dia, de sol ou chuva. O primeiro dia de 365 outros para caminhar nesse presente que é a vida.
Enquanto uns acabam sua caminhada, outros começam agora, e outros estão no caminho. A vida não para. Não por acaso estamos aqui.


Estamos?
Estou?
Estive?
Estarei?


Estações. O tempo passa por nós, a cada segundo. Não adianta tentar parar o tempo, tentar partir o indivisivel. Não estamos sós. Mais vinte anos estão por vir. 

Obrigada.

-
Luiza.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

As Veias abertas da América Latina.

Em algum lugar do tempo parado:

- Faz tempo que não venho aqui.
- É, agora faz tempo tanta coisa.

- Parece que nada mudou.
- Parece mesmo?

- Sim, está tudo no mesmo lugar.
- Você que não mudou nada.

- Eu?
- Sim, nunca foi de perceber muito..

- Mentira
- Mentiras.

- [...]
- De quando éramos Reis...

- Faz tanto tempo.
- Sim, agora faz.

- Como fez?
- O que?

- Pra passar.
- Fui levando.

- Chegou?
- Ainda estou no caminho.

- [...]
- Não tenho pressa mais, tudo no seu tempo.

- É.
- Passaram-se alguns anos, pus a roupa de domingo.

- E?
- Me senti estranha, não combinava mais comigo, tirei as mascaras, ainda não estavam pegadas a cara, recomecei tanta coisa, todos os dias, hoje estou aqui.

- Eu quis voltar, até pensei, sabe...
- Não importa, mais.

- Faz tanto tempo, agora.
- O passado não existe mais.

- O futuro então?
- Não existe ainda.

- Fato.
- O presente é.

- Chance?
- Nenhuma.

- Dói?
- Não mais.

- Entendo...
- Acontece.

- [...]
- Café?

- Sem açúcar, por favor.
- [...]

- [...]
- Aqui.

- Obrigado.
- Não há de que.

- Até.
- Au revoir.


-


Uma porta de madeira se fecha, fechando de vez histórias e estórias que aconteceram naquele Café. Um homem se foi, com seu nome, seus sorrisos, sua parte no passado. Deixou algumas lembranças, alguns sorrisos. Ela guardou tudo em uma caixa, depois em linhas, depois em lembranças, depois lá para o fim do futuro, o alzheimer levou as lembranças, deixando nela apenas um sorriso amarelo escondido no rosto, e para os outros uma vaga sensação de que ali dentro, dentro daquela pessoa, tinha um mundo inteiro de histórias e estórias que valeriam a pena ser ouvidas.

-
A vida não é
Banal.
 l u a.

3.

* Postagens Aleatórias de 2010.

Todos os dias as pessoas se acostumam a outras pessoas e a diversas situações. E quem realmente importa, por vezes chega a passar despercebido, na nossa frente. 
Hoje eu estava deitada na minha cama, e o meu melhor amigo me ligou, querendo uma companhia pra sair [ele é uma das pessoas mais sozinhas que eu conheço]. Eu disse:

- Não posso, estou doente.
- Toda vez que eu te chamo para qualquer coisa você sempre inventa uma desculpa que não pode ir.

- Eu realmente estou doente.
- Então das outras vezes eram mentira?

- Não, não eram.
- Você não me convence mais.

- [...]
- [...]

- Vamos comer uma pizza na terça?
- Porque não na segunda?

- Na terça eu não tenho aula.
- Pois eu vou na segunda.

- Vamos na terça.
- Na segunda.

- Na segunda eu não posso.
- [...] - [Você nunca pode quando é para mim]

- [...]
- Tchau. [Tu, tu, tu...]

Lista das coisas que ele já me chamou para fazer e eu não fui, porque não podia, ou na verdade qualquer motivo é banal, perto de que é o meu melhor amigo.

- Vamos viajar para outra cidade?
- Porque/Pra que?
- Estou interessado numa garota e ela mora lá, e eu não quero ir só, estaria mais confiante com você ao lado, e poderíamos passear pela cidade, tomar sorvete, sei lá.
- Não posso.
- Porque?
- Motivo qualquer.

Feriado.
- Vamos a praia?
- Quando?
- Amanhã de manhã.
- Não posso/não quero.

[Esse pedido já foi feito mais de 20 vezes]
- Vamos a pizzaria?
- Não dá.
- Me dê um motivo.
- Não dá.

- Vamos no shopping?
- Fazer?
- Andar, cinema, qualquer coisa.
- Não posso.

- Vamos doar sangue?
- Sim, vamos!
- Eu me visto todo de vermelho para apoiar e te compro chocolate depois.
- Certo! Aonde vamos?
- Laboratório A.
- Laboratório A eu não vou, só vou se for no Laboratório B.
- Porque não no A?
- Porque lá o sangue vai para hospitais privados, e no B para públicos.
- Que diferença faz? A questão é vidas, e além do mais iríamos juntos.
- Só vou no B.
[Terminamos não indo, até hoje. Tudo bem que agora eu não posso mais, até investigar uma questão que possivelmente me impedirá de doar sangue]

- Vamos ao cinema?
- Não posso.

- Vem dormir aqui em casa.
- Tá louco?
- Você é minha amiga, e sabe que eu lhe respeito, eu durmo com a minha mãe, e você dorme na minha cama.
- Minha mãe não deixaria.
- Eu falo com ela, é sério, eu não faria nada de mais.
- Eu sei que não.
- Poxa, ficaríamos conversando, assistindo filme, e eu até pediria a mainha para fazer cachorro-quente.
- Seria massa.
- Vem?
- Não posso
[Nem ao menos eu tentei, ou deixei ele falar com minha mãe]

Eu poderia escrever aqui mais uma lista infindável de coisas que pelo menos nesse último ano ele já me chamou para fazer e eu não fui. 
Auto Acusação:
- Eu sou monstro.

Auto Defesa:
- Eu não fiz por maldade, eu realmente não tinha tempo ou não podia por algum motivo.

Auto Conclusão:
- Eu sou um monstro tapado.

Auto Reflexão:
- Ele é meu amigo, meu melhor amigo. Posso escrever uma lista de coisas bonitas que ele já fez por mim, desde que eu tinha 14 anos. Estamos na faculdade. Ele é meu amigo, meu melhor amigo, e qualquer motivo que eu tenha dito a ele para deixar de fazer qualquer coisa que ele me chamou para fazer, qualquer motivo é pequeno, porque as oportunidades com os amigos são sempre valiosas. Amigos são pessoas que fazem da nossa vida algo muito melhor, dia após dia. Bom, eu já perdi varias oportunidades de mostrar pra ele, apenas com a minha atenção, que ele é uma pessoa importante para mim. Talvez possa estar ficando tarde. E eu sei o quanto eu posso me arrepender depois. Afinal, não é todo dia que temos alguém para chamar de amigo. Quando eu chamei ele pra ir comer uma pizza na terça, e ele quis saber por que na terça, e eu disse que era por que eu não tinha aula, ele disse que iria na segunda, não era por nada exatamente. É só porque se eu fosse na segunda ele de forma ou outra saberia que importa pra mim. Bom ele importa pra mim. E agora eu tenho que correr, para mostrar isso a ele.

-

Bom, isso tudo aqui, é apenas uma reflexão, de mim para comigo, e com vocês.

O que realmente importa cabe no simples.
Por que eu complico tanto?

-

Todos os dias cometemos erros e temos atitudes que nos mostram o quanto somos pequenos, ainda.
Todos os dias, pela manhã que se inicia, o sol aparece novamente, depois de uma noite escura, com ou sem lua.
Todos os dias, temos a oportunidade de recomeçar, para os nossos erros, e de continuar a caminhar, nessa vida.
Todos os dias a vida acontece, e o que realmente importa cabe no simples.
"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."

Lua Durand.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O último dia.

O último dia, ou: 
Passarinho na gaiola, quando canta é de tristeza.

-

Inconteste. O coração bate dentro do peito e se alastra para o corpo todo, eu sou em todo coração. A vontade que dá é de ir embora de vez, desse mundo, dessa realidade tão irreal. Tudo ao redor parece vento, sei que é só abrir os braços, o mundo é meu, o corpo não.
Incoformo-me. Tudo é tão pouco, eu só quero ir além do tudo, e mais ainda, de mim.
Não tem jeito, não há mais hora.
O mundo borrado, o mundo tremido, o mundo desequilibrado treme, não de frio.
As formas dançam ante os meus olhos, e eu saio do corpo a qualquer momento agora, quando eu quiser, naturalmente.
Eu não pertenço a mim, meu corpo esta passando, o vento me carrega para longe, o corpo se desintegra, tudo o que fica é luz.

Leveza, cadê?
-

Passarinho voa, voa.
Passarinho só quer voar.

-


Para ver/ouvir/sentir: O velho - Chico Buarque.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sobre a mulher de Sartre, que não era Beauvoir.

"Jules Renard dissera ao filho: Estuda uma só mulher, mas estuda‑a bem, e conhecerás a mulher."
Trilogia Caminhos da Liberdade. Livro Segundo: Sursis.
Jean Paul Sartre

E quando sentia vontade de chorar, corria para o banheiro, arrancava a roupa, de uma vez só, entrava naquela água gelada que jorrava da parede, desejando apenas ir embora, pelo ralo, com a água, as lágrimas, e tudo o mais.
Saia daquele diluvio, colocava um vestido qualquer, dentre os tantos floridos, ia as ruas, andar, e esquecer da imensidão da casa. Em seu caminho, olhavam para ela, Homens, Mulheres, Crianças, Cachorros, Idosos, e ela, apenas ela, não via ninguém. Para si apenas caminhava, para os outros parecia um furacão, reclamando para ela todas as atenções, apenas com seu cheiro, sua presença.
Sim, ela caminhava, sem rumo, sonhos ou lugar onde pudesse chegar. Passava por pontes, e carros, se dirigindo até o lugar onde tudo começou. O tudo incluía a cidade, e os sorrisos que já foram dado em vida.
O marco 0 não era tão longe, mas parecia uma eternidade até chegar lá. E ela seguia. O seu mundo, era agora (ou sempre fora?) preto e branco, e sem som. Ao pisar no chão, daquelas ruas antigas, saudosismo invadia o peito, e entranhava mais profundo nela, dor. Dor da consciência que tinha de si e que dia a dia vinha se confirmando. Lembranças corriam em volta dela, tão convidativa. Era só chegar a praça da torre com o relógio, e tudo parava. Pessoas, pombos e vigias. A fonte ligada, jogava água ao redor, e ela, agora sozinha, lá em cima dançava, para ela mesma, e mais ninguém, e quem a via, que ela não via, pensava em para-la, ou num átimo de loucura, a ela se juntar, naquele mundo preto e branco, tão colorido por fora, para os outros, mas imensamente vazio por dentro, aos olhos dela. A cidade para ela estava vazia, mas mesmo vazia, ausente, a presença era forte de mais, as lembranças doíam. E aquela cidade vazia, tinha nos muros de cada rua, pichações que diziam para ela ir embora, sair dali, porque era a única chance, sair da cidade, ou da vida. Um dia ela sairia, da cidade, do país, e em um lugar tão frio como o mundo dela, ela sentiria a necessidade de sair agora do mundo, porque não dava mais, tudo sufocava, então ela corria. Trocou as lentes, várias vezes, com várias pessoas, em vários lugares, mas o que estavam quebrados, não eram os óculos e as lentes, e sim os seus olhos, que há muito eram tais quais os de um tal assum preto, do sertão quente, do chão rachado, do amor perdido. Os olhos dela, dois olhos negros, eram tristes, enigmáticos, opacos, pensativos, e um dia, enquanto trocava as lentes, um moço dissera a ela, que nascera com ela os únicos olhos do mundo que demonstravam sentimento. Os olhos dela, doíam, choviam. Lágrimas negras. Para ela, por ela, dela, e mais ninguém. A dor era tanta, que não tinha jeito nem hora. Doía só, e ela apenas cansada, deixava doendo, doer por fim. Um dia, ela pensou que esse fim tinha chegado, e nesse dia, disseram que ela sorria, quando o vazio chegou. O mundo vira sim, mas para o mundo, o que o mundo via, era ela se enchendo, de beleza e vida. E tantos queriam apenas uma oportunidade, de entrar naqueles olhos negros, de fazer morada naquele corpo, de levar algumas cores para aquele mundo. Mas ninguém via, que por dentro ela estava cada vez mais se esvaziando, de vontades, vida, sentimento, lágrimas. Era tudo negro por dentro, e branco por fora. Era tudo preto e branco, no mundo dela. Que um dia, lá longe, fora grande o bastante, pra caber mais alguém, e mais alguns planos, sonhos, crianças, cachorros, casas, e apenas uma música, que ainda hoje, relembra aqueles velhos tempos, em que ela, linda e nua, chegava no céu pra mostrar evoluções. 
-
Hoje eu a vi, caminhando ao longe, saí correndo atrás dela, para conversar um pouco, pois ela me intrigava tanto. Não sei como, ela me deu um pouco de atenção, sentamos em um lugar que eu descobri recentemente, uma maquina do tempo, no coração da praça do tempo Recifense, cheio de espelhos, e de clima agradável, eu levei-a lá, com a esperança de que pudéssemos ser transportados, para o passado ou o futuro. Sentamos, puxei a cadeira pra ela, achei que ela gostava de gentilezas, talvez eu tenha me enganado, ou não. Do balcão, o moço perguntou o que iríamos beber, pedi uma cerveja bem gelada, ela pediu um expresso, bem forte. E começamos a conversar.
Entre um gole e outro de café, ela me dizia que se soubesse o quanto dói a vida, essa dor tão doída que ela trazia no peito, não doeria tanto assim. E quanto mais ela falava, mais eu me perdia, naqueles olhos, boca, narinas e orelha, naquele perfume forte, e minha garganta seca, pedia um cigarro, para tragar. Ela dizia mais, que esse mundo não era dela, e eu dizia, aqui é festa amor, e ela respondia, e a tristeza em minha vida? E eu perto dela, me sentia tão pequeno, apenas um menino, diante de uma mulher.
E eu perguntava a ela, daquela menina de alguns anos atrás, que todos diziam encantadora e doce, alguém que marcava, cativava. E ela dizia, que não sabia quando, mas aquela menina resolvera ir embora, passear um pouco, e não deixou endereço, mas de vez em quando ela voltava, e reclamava para si, todos os textos, atenções e prosas. E quanto mais ela falava, eu me perdia. Mas de repente, tão de repente, vislumbrei um sorriso naquele rosto, ela tentou disfarçar, mas não conseguiu, e os sorrisos jorravam, metamorfoseando aquela mulher, a cada momento, sim, eu via diante de mim as 151 mil pessoas diferentes que haviam ali dentro, eu via o passado, o presente, e o futuro. O café dela acabou, ela pediu um vinho, não estranhei, ela estava lá, isso é o que importava. Conversamos a noite inteira, e pela maquina do tempo, passaram mulheres dos anos 50, e homens do século 22. E ela continuava ali, e eu, cada vez mais perdido. Depois de tantas cervejas e vinhos, convidei-a a passear comigo, pela Praça do Tempo Recifense, para apreciar a luz. Caminhávamos, ela mais a frente, e eu observando, as pessoas ao redor, e a luz, invadindo, e devastando-a, e ela não percebia. Aquela presença era tão forte. Caminhávamos, sorriamos. A vida não importava mais, eu estava ali, ela estava ali. Estávamos. Apenas isso. E eu me perdendo, descobri que ela brincava comigo, e eu era apenas mais um personagem, de dentro, dela, das 151 mil pessoas diferentes, que passeavam ali dentro, ali fora, pela Praça do Tempo, pela Times Square.


-
Indo pra fora.
Para ler, ouvir, sentir:
Marshall Berman - Espetáculos em Times Square (ler)
Franz Kafka - A Metamorfose (ler)
Jean Paul Sartre - Trilogia Caminhos da Liberdade: (ler)
1 - A Idade da Razão.
2 - Sursis.
3 - Com a Morte na Alma.
Chico Buarque - A televisão (ouvir/sentir)
Caetano Veloso - A tua presença morena (ouvir/sentir)
Nelson Gonçalves - Naquela Mesa (ouvir/sentir)
3 na massa - na confraria das sedutoras (ouvir, o albúm inteiro)
Otto - Certa manhã acordei de sonhos intraquilos (ouvir, o albúm inteiro)

Lua,

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

2.

*postagens aleatórias de 2010.

Saí sim. Todos os dias. Correndo. De tudo, todos, e principalmente, de você. Fugi tantas vezes, nas mais das vezes, quando eu via você olhando pra mim, me cobrando respostas, medos, sonhos. Era tudo ilusão, e sempre tive medo que você descobrisse isso, descobrisse o quão pequeno era o nós dois. Abraços partidos, planos acabados. A vida continuaria sim, assim, só eu, só você. Um dia, quem sabe, talvez, você encontrasse um novo alguém, e outros novos sentidos. Pois eu apenas estava cansado, e pretendia ficar parado, vendo o tempo passar, até quando? Outro dia, senti o teu perfume na rua, e isso me despertou aquelas lembranças mais perdidas, do tempo em que olhar o nosso reflexo em vitrines de lojas fazia sentido. Do tempo em que fugíamos do mundo, para lugares onde só haveria eu e você, e ficavamos juntos, por horas, e nada mais importava tanto, porque lá fora a vida seguia, e entre eu e você o mundo explodia. Sim, explodimos juntos, mas tudo isso passou. Você passou por mim, não me reconheceu, apenas passou. E não importou mais para mim, apenas passou. Descobri novas cores, novos alguéns, novos gostos, cheiros e sensações, coisas que pareciam muito pequenas para você. Descobri a grandeza que há nas pequenas coisas, pequenas atenções. Agora, essas coisas não importam tanto. Nada muda tanto. Você está em algum submundo, e eu continuo, sobre viver, vivendo.

Sim.
-

"quando eu saí da tua vida, bati a porta, saí morrendo de medo, do desejo, do desejo de ficar."
O leite - Otto.

(doendo)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

1.

1. - postagens aleatórias de 2010.

Quem somos nós? Quem? O que? Quando?
Perguntas ecoavam sem respostas, na mente de alguém que apenas caminhava, igual a tantas outras pessoas numa avenida movimentada.
Perguntas ecoavam dia e noite, na mente de alguém, com um nome comum, uma vida comum, uma rotina comum.
Todos os dias eram as mesmas coisas, pessoas, pensamentos e sensações, aqui, ou simetricamente do outro lado do mundo.
A vida era a mesma, o sangue era vermelho, o sol nascia sempre. Não havia o que achar diferente.
Talvez, o mundo estivesse pequeno de mais, outro planeta talvez fosse o ideal.
Precisava sair, da vida, ou do mundo. Eram as únicas opções.
Um dia, acordou sem coragem para enfrentar o dia.
Abriu os olhos, levantou-se da cama, e foi para a rotina de sempre.
Mas estranhamente o mundo antes igual, parecia diferente, as cores estavam mais vibrantes, o sangue nas veias pulsava quente, as pessoas eram incríveis, vestindo a fantasia do dia-a-dia, o céu, de imenso azul e nuvens brancas era apenas um pedaço da beleza infinita que fazia parte desse mesmo mundo, que até ontem era diferente.
Chegou em casa à noite, com a sensação que a lua brilhava só para ele.
Olhou-se no espelho, e viu que os óculos que usava não eram os seus.
E foi aí que percebeu, que o mundo era um, o mesmo. E que era ele, quem devia trocar as lentes.

-

Por mais que se queira, a vida não para.
Nós estamos aqui, hoje. Não por acaso.
Vamos trocar as nossas lentes?
Lua.
*Para ouvir: Silvério Pessoa - Ciclos.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Reflexos de um dia cinza.


“Estava sentado em um banco próximo à linha do trem, consultava o relógio de vez em quando, e pensava na vida, na minha, e nas vida das pessoas que passavam ao redor. Estava completamente absorto, em um estado quase contemplativo. Hoje eu estava ali, mas ontem ainda, eu não era o que sou hoje. Ontem eu era alguém, com alguns planos, muitos sonhos e um único objetivo. Ontem, eu queria o mundo, queria viver tudo, e sorrir descontroladamente. Hoje, eu me sinto perdido, sem chão, sem rumo, sem vontades. Pensei até em desistir. Parecia tão fácil. Apenas alguns passos, na hora certa, e o tudo, acabaria então. Coragem? Não tive, a minha vida inteira. Sempre deixei as pessoas, coisas e oportunidades passarem. E como passaram. Sempre me dei conta das coisas, depois que não tinha mais volta. Seria mentira dizer que nunca me arrependi. Pois isto aconteceu, inúmeras vezes, tantas que já perdi as contas. Doía muito, e eu sempre disse que iria fazer diferente na próxima vez, sempre apenas disse, eu nunca fiz. E assim, perdi alguns amigos, muitos possíveis amores, e pessoas e pessoas passaram por mim, sem que eu me permitisse criar laços. A vida era pra mim uma constante banal. E eu, sempre fui meio blasé com ela. A vida era vivida sempre no agora, pois para mim não havia passado ou futuro certo, o que importava era viver alucinadamente o presente. Isto aconteceu até ontem. Até ontem eu era alguém. Até ontem a vida me sorria. Hoje, eu me vi no reflexo de uma vitrine, e fiquei quase uma hora parado olhando, aquele homem que me encarava, tão familiarmente, e tão assustadoramente real. Hoje, eu vi o que eu me tornei, e não posso aceitar isso. Não quero aceitar isso.” 

-

Notícia publicada no jornal, no dia seguinte, em uma coluna escondida na segunda página:

- Caos na Estação.
Ontem, na estação do trem, às 07:30h da manhã. Um homem se jogou na linha do trem, quando este estava a poucos metros de chegar. Muitas pessoas que seguiam sua rotina pararam ao ver aquela situação. O local foi evacuado minutos depois. Do homem não sobrou nada, a não ser um pedaço de papel em sua mão que dizia o seguinte:
“Envelheço. E isso me mata.”
Ninguém o reconheceu, e seu corpo será enterrado no cemitério da cidade, como indigente, na tarde de amanhã.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

O homem que via de mais.

Andava em silêncio pelas ruas da cidade, cheias de gente, procurava ser o mais discreto que conseguisse, e conseguia. Ninguém o notava. E ele via, o mundo inteiro ao redor explodindo em vida, histórias e estórias, que ocorriam ali, naquele exato momento, e não ficavam eternizadas depois, nas telas de cinema, ou nas cores de uma fotografia. Ficavam paradas na cabeça dele, nas lembranças dele, algumas um tanto borradas, a maioria em preto e branco. Era um observador. E via tudo. As dores, lágrimas, e principalmente os sorrisos. A timidez latente em se sustentar olhares, a vida que passava calmamente, com ares frescos ao redor.
Guardava tudo aquilo numa caixinha, pois tudo era precioso de mais, para se deixar ao vento. Em dias de chuva, impossibilitado de ir a rua, ficava olhando pela janela do seu apartamento, vendo o céu, que parecia cair, sem se importar com aquela mesma vida que passava nas ruas, no chão. Viu tanta coisa, em tantos anos. Chorou com os amores criados alí, na hora, na rua, de vida. Com as despedidas interminavéis de milhares de abraços que partiam-se em dois, indo braços para lados opostos, carregando nas mãos corações que sofriam por ter que ir embora. Viu em um dia qualquer, alguém que vendia sonhos na praça, sonhos estes que eram pescados mais cedo no rio. E ficou de longe, vendo as pessoas que compravam estes sonhos, depois de dois passos verem os sonhos desaparecendo no ar. Isso era agora tão comum. 
Como vibrou, no dia em que naquelas mesmas ruas, junto com milhares de outras pessoas, que não o viam, viram juntos o carnaval passar, trazendo alegria, levando tristezas e deixando saudades. Perdeu a cabeça, e por estes dias não viu mais nada.
Um dia cansou, de ver tanto, e não viver nada. E assim cansado, pegou a caixinha onde guardava todas essas lembranças de outrem, abriu e jogou seu conteúdo ao vento, deixando este se espalhar, por aquelas mesmas ruas que vira tanto. Não levou bagagem, nem roupa. Não deixou saudades, nem lembranças. Saiu de casa, e foi pro mar. Para não ver nada, pois precisava agora, se encontrar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Crua.

Teve medo.
O medo fez-se espanto.
O espanto fez-se riso.
O riso fez-se lágrima.
A lágrima fez-se dor.
A dor fez-se sozinha.
E consumiu. O peito. A mente. Dias e dias. Passado e futuro.
A dor, levou junto com ela o sono. Ainda achando pouco, levou também a velha crença no grande amor.
A dor, fechou o sorriso, antes aberto, estampado no rosto.
Reclamou para si todos os versos, atenções e prosas.
A dor era tanta, que não tinha jeito nem hora. 
Ele não compreendia como podia doer tanto assim.
Doía tudo. O dito e o não dito.
O que foi vivido, e o que ficou na cabeça, nas letras, no papel, nas telas de cinema.
Inútil era qualquer tentativa. A dor não passava.
Se sentiu vencido, deixou doendo, doer por fim.

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*escrito originalmente no dia 04/03/10, porém é sempre atual. 
**para ouvir: faixa 1, do albúm: certa manhã acordei de sonhos intraquilos, do artista Otto.

domingo, 11 de abril de 2010

Sonho que se sonha junto.

Acordou pela manhã, não a encontrou ao seu lado na cama. Levantou-se, e antes de qualquer coisa foi procura-la pela casa, queria apenas dizer bom dia.
Não a encontrou. Intrigado, foi para o chuveiro, com a impressão que ela tinha saído apenas para comprar o pão.
Terminou o banho, trocou de roupa, estava na hora de ir trabalhar, deixou um bilhete colado na geladeira, dizendo que a amava, e que a noite jantariam juntos.
Esta noite, faria um ano que tinham se conhecido.
No primeiro olhar, sempre soube que era ela. Sempre soube que passaria outras tantas e tantas noites acordado, como na primeira noite, apenas olhando para ela.
Se segurou durante o dia, para não ligar, pois se ligasse iria concerteza estragar a surpresa que tinha preparado para a noite.
Já tinha encomendado na floricultura mais próxima, um bouquet de flores das quais ela tanto gostava, e sairia mais cedo do trabalho, para passar no mercado, compraria um bom vinho, e duas taças, para comemorarem.
Ansioso, olhava para o relógio, as horas não passavam.
Na hora prevista, saíra praticamente correndo, esquecera uns relatórios importantes sobre a mesa, mas naquele momento tudo podia esperar, menos ela.
Passou na floricultura, pagou e pegou as flores, passou no mercado, e enfim foi pra casa, quase correndo, não queria perder um minuto ao lado dela.
Abriu a porta rápido, largou a chave sobre a mesa, e foi preparar o ambiente, já tinha planejado tudo muito antes, ela iria chegar dali a uma hora, do trabalho, estaria um pouco cansada, o dia tinha sido estressante, ele bem sabia.
Jogou pétalas de rosa, por todos os caminhos da casa, ligou para o restaurante italiano que ela gostava e pediu a massa favorita dela, colocou no som o cd de bossa que ela mais gostava, espalhou velas pela casa inteira, a luz seria essa e nenhuma outra mais.
Certificou-se que estava tudo pronto, foi para o banho, tinha a barba por fazer, deixou a porta aberta, para ouvir quando a comida chegasse.

-

Fechou a porta devagar, tinha saído cedo, para não acorda-lo, tinha que sair cedo, tinha tanta coisa para resolver, e uma reunião marcada para o inicio da noite.
Hoje mais do que nunca, lembrara de tudo, do começo, de como foi paralisante conhecer ele, no meio de um show de rock, onde o som ambiente não deixava espaço para ouvir a voz de mais ninguém, e quando os olhares de ambos se cruzaram, foi como se o mundo inteiro ao redor parasse, como se todas as pessoas ao redor sumissem, sentiu sinestesia pelo corpo inteiro, com tudo e mais.
Desde daquele dia, daquele olhar, ela sabia. Na frente dela estava o cara por quem ela se apaixonaria todos os dias, com quem brigaria pelos motivos mais banais e que minutos depois estariam bem de novo, o cara com quem ela desejaria ter um filho, uma casa, um cachorro, e todos os outros planos de uma vida inteira juntos.
Sempre soube disso. E apenas sete meses depois lá estavam eles, morando juntos, num apartamento alugado, com a cara dos dois.
Sentia-se segura ao lado dele, sentia-se bem, nada mais importava tanto.
Passou o dia no trabalho, tendo flashs momentâneos na cabeça, dos bons momentos que passaram juntos até ali, e isso arrancava dela sorrisos espontâneos, no transito, atendendo um cliente, e até mesmo no meio da reunião.
Lembrou de quantas coisas não passara a gostar só por causa dele, e de como ele relutara em ouvir o cantor predileto dela, mas que acabara cedendo e até gostando, sorria também com isso.
A reunião acabou um pouco tarde, logo hoje, não queria demorar a chegar em casa de jeito algum, fazia um ano que tinham se conhecido, não teve tempo de planejar nada, mas ainda assim poderia improvisar um jantar pra dois, ou alguma coisa para não passar em branco. Pensou mesmo em viajarem no fim de semana, comemorariam na praia.
No carro, botou o cd predileto dele, que agora era o dela também.

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Saiu do banho, a comida ainda não havia chegado, escolheu a blusa que tinha ganho dela no natal, e uma calça leve, deixou o cabelo secar sozinho.
Andou mais uma vez pela casa, vendo se estava tudo no lugar, a campanhia tocou, era a comida que havia chegado. Pagou ao entregador, e agradeceu sorrindo.
Foi a cozinha, olhou o relógio, estava quase na hora de ela chegar.
Ficou sorrindo sozinho, com uma cara de bobo, lembrando dela, e imaginando o rosto dela quando ela chegasse e visse tudo aquilo. Ela sempre reclamava que ele não era lá muito romântico. Talvez ele apenas não soubesse como se expressar. Pediu ajuda a mãe e as irmãs, para preparar tudo aquilo, sozinho não teria pensado em tudo.
Olhou mais uma vez no relógio, ela estava demorando um pouco mais hoje, ansioso, continuou a esperar.

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Estacionou o carro no prédio, a vaga apertada, estava querendo falar com a sindica para trocar havia um tempo.
Estava cansada, queria tomar um bom banho.
Moravam no segundo andar, foi de escada como sempre, e lembrou de que toda vez ele gostava de esperar o elevador, e ela sempre dizia: “mas são só dois andares”, e ele sempre a puxava para dentro do elevador dizendo: “pois é, são apenas dois andares”, sorria. Chegou a porta de casa, ouviu o som bem baixinho dentro, não desconfiou de nada, não identificou a musica. Virou a chave, abriu a porta. O rosto abriu-se em sorriso, o cansaço ficou do lado de fora.

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Os olhos dos dois se encontraram, o mundo parou novamente.
Sinestesia percorria o corpo dela.
E a mesma certeza sentida um ano atrás por ele, era a certeza sentida agora. Sim, era ela.
O mundo lá fora parou, o mundo lá dentro explodia.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sobre viver.

Costumava caminhar todas as manhãs pela praia. Enquanto muitos ainda dormiam, despia os sapatos e sentia o toque da areia sob os seus pés.
Caminhava, comumente perdido em pensamentos e lembranças sobre tantas e tantas coisas que já tinham passado.
Um dia, encontrou uma criança sentada na praia, de modo que deixava as ondas baterem de leve em seus pés. O olhar fixo no mar.
Passou. Andou até mais a frente. Como de costume, voltou. A criança continuava ali, imóvel.
Intrigado, sentou-se perto, também deixando as ondas a lhe banharem os pés.

Criança:
- O que me diz senhor, sobre a vida?

Velho:
- Estudei, vivi, amei e até cri. E ainda assim não tenho maiores coisas pra lhe contar, você vai ver por si só.

Criança:
- Se arrepende de algo?

Velho:
- Dos amigos que eu não pude fazer, a vida passa. Hoje estou aqui, ontem eu fui você.

Criança:
- Amanhã eu serei o senhor.

Velho:
- Invariavelmente o tempo passa. Nascemos, crescemos e morremos a cada dia.

Criança:
- E o que é a vida afinal?

Velho:
- A soma dos dias.

Criança:
- Aprendi uma expressão nova na escola, Tempus Fugit.

Velho:
- Tempus Fugit.

Criança:
- Ainda não a compreendo muito bem.

Velho:
- O tempo voa. O que você espera?

Criança:
- Eu esperava o senhor, para me contar de tudo o que vai me ocorrer na vida.

Velho:
- Eu não tenho esse saber. Mais a frente a vida lhe espera, só você é quem vai descobrir.

Criança:
- Tenho medo. Poderás vir comigo?

Velho:
- Não. O peso dos anos agora me doem no corpo. Em vida, enquanto você amanhece, eu anoiteço.

Criança:
- Eu devo ir então.

Velho:
- Sim.

A criança se levanta, os pés molhados.

Criança:
- O que me diz para a vida?

Velho:
- Carpe diem.

A criança iniciou a sua caminhada. O velho, de olhos molhados e coração leve, encerrou a sua.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre doer.

Aguda. Vinha sim. Vinha assim. Uma vez. Parava. Mais uma vez. Parava. E doía, como doía. Não tinha hora. Era parado no sinal pra atravessar a rua, o sinal fechado, e a mente vagueando na dor. O sinal aberto, os pés em desalinho, desalentado andava, sozinho, com sua dor. E doía. Com palavras, fotos, expressões, sons. Doía. E a dor escorria por todo o seu corpo, como chuva. E ele vivia, sem remédio, doendo, até não poder mais. Não tinha fuga, era apenas dor. Não tinha alivio, não tinha sono certo, não tinha nada de mais, era apenas dor.