sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sobre viver.

Costumava caminhar todas as manhãs pela praia. Enquanto muitos ainda dormiam, despia os sapatos e sentia o toque da areia sob os seus pés.
Caminhava, comumente perdido em pensamentos e lembranças sobre tantas e tantas coisas que já tinham passado.
Um dia, encontrou uma criança sentada na praia, de modo que deixava as ondas baterem de leve em seus pés. O olhar fixo no mar.
Passou. Andou até mais a frente. Como de costume, voltou. A criança continuava ali, imóvel.
Intrigado, sentou-se perto, também deixando as ondas a lhe banharem os pés.

Criança:
- O que me diz senhor, sobre a vida?

Velho:
- Estudei, vivi, amei e até cri. E ainda assim não tenho maiores coisas pra lhe contar, você vai ver por si só.

Criança:
- Se arrepende de algo?

Velho:
- Dos amigos que eu não pude fazer, a vida passa. Hoje estou aqui, ontem eu fui você.

Criança:
- Amanhã eu serei o senhor.

Velho:
- Invariavelmente o tempo passa. Nascemos, crescemos e morremos a cada dia.

Criança:
- E o que é a vida afinal?

Velho:
- A soma dos dias.

Criança:
- Aprendi uma expressão nova na escola, Tempus Fugit.

Velho:
- Tempus Fugit.

Criança:
- Ainda não a compreendo muito bem.

Velho:
- O tempo voa. O que você espera?

Criança:
- Eu esperava o senhor, para me contar de tudo o que vai me ocorrer na vida.

Velho:
- Eu não tenho esse saber. Mais a frente a vida lhe espera, só você é quem vai descobrir.

Criança:
- Tenho medo. Poderás vir comigo?

Velho:
- Não. O peso dos anos agora me doem no corpo. Em vida, enquanto você amanhece, eu anoiteço.

Criança:
- Eu devo ir então.

Velho:
- Sim.

A criança se levanta, os pés molhados.

Criança:
- O que me diz para a vida?

Velho:
- Carpe diem.

A criança iniciou a sua caminhada. O velho, de olhos molhados e coração leve, encerrou a sua.