domingo, 11 de abril de 2010

Sonho que se sonha junto.

Acordou pela manhã, não a encontrou ao seu lado na cama. Levantou-se, e antes de qualquer coisa foi procura-la pela casa, queria apenas dizer bom dia.
Não a encontrou. Intrigado, foi para o chuveiro, com a impressão que ela tinha saído apenas para comprar o pão.
Terminou o banho, trocou de roupa, estava na hora de ir trabalhar, deixou um bilhete colado na geladeira, dizendo que a amava, e que a noite jantariam juntos.
Esta noite, faria um ano que tinham se conhecido.
No primeiro olhar, sempre soube que era ela. Sempre soube que passaria outras tantas e tantas noites acordado, como na primeira noite, apenas olhando para ela.
Se segurou durante o dia, para não ligar, pois se ligasse iria concerteza estragar a surpresa que tinha preparado para a noite.
Já tinha encomendado na floricultura mais próxima, um bouquet de flores das quais ela tanto gostava, e sairia mais cedo do trabalho, para passar no mercado, compraria um bom vinho, e duas taças, para comemorarem.
Ansioso, olhava para o relógio, as horas não passavam.
Na hora prevista, saíra praticamente correndo, esquecera uns relatórios importantes sobre a mesa, mas naquele momento tudo podia esperar, menos ela.
Passou na floricultura, pagou e pegou as flores, passou no mercado, e enfim foi pra casa, quase correndo, não queria perder um minuto ao lado dela.
Abriu a porta rápido, largou a chave sobre a mesa, e foi preparar o ambiente, já tinha planejado tudo muito antes, ela iria chegar dali a uma hora, do trabalho, estaria um pouco cansada, o dia tinha sido estressante, ele bem sabia.
Jogou pétalas de rosa, por todos os caminhos da casa, ligou para o restaurante italiano que ela gostava e pediu a massa favorita dela, colocou no som o cd de bossa que ela mais gostava, espalhou velas pela casa inteira, a luz seria essa e nenhuma outra mais.
Certificou-se que estava tudo pronto, foi para o banho, tinha a barba por fazer, deixou a porta aberta, para ouvir quando a comida chegasse.

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Fechou a porta devagar, tinha saído cedo, para não acorda-lo, tinha que sair cedo, tinha tanta coisa para resolver, e uma reunião marcada para o inicio da noite.
Hoje mais do que nunca, lembrara de tudo, do começo, de como foi paralisante conhecer ele, no meio de um show de rock, onde o som ambiente não deixava espaço para ouvir a voz de mais ninguém, e quando os olhares de ambos se cruzaram, foi como se o mundo inteiro ao redor parasse, como se todas as pessoas ao redor sumissem, sentiu sinestesia pelo corpo inteiro, com tudo e mais.
Desde daquele dia, daquele olhar, ela sabia. Na frente dela estava o cara por quem ela se apaixonaria todos os dias, com quem brigaria pelos motivos mais banais e que minutos depois estariam bem de novo, o cara com quem ela desejaria ter um filho, uma casa, um cachorro, e todos os outros planos de uma vida inteira juntos.
Sempre soube disso. E apenas sete meses depois lá estavam eles, morando juntos, num apartamento alugado, com a cara dos dois.
Sentia-se segura ao lado dele, sentia-se bem, nada mais importava tanto.
Passou o dia no trabalho, tendo flashs momentâneos na cabeça, dos bons momentos que passaram juntos até ali, e isso arrancava dela sorrisos espontâneos, no transito, atendendo um cliente, e até mesmo no meio da reunião.
Lembrou de quantas coisas não passara a gostar só por causa dele, e de como ele relutara em ouvir o cantor predileto dela, mas que acabara cedendo e até gostando, sorria também com isso.
A reunião acabou um pouco tarde, logo hoje, não queria demorar a chegar em casa de jeito algum, fazia um ano que tinham se conhecido, não teve tempo de planejar nada, mas ainda assim poderia improvisar um jantar pra dois, ou alguma coisa para não passar em branco. Pensou mesmo em viajarem no fim de semana, comemorariam na praia.
No carro, botou o cd predileto dele, que agora era o dela também.

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Saiu do banho, a comida ainda não havia chegado, escolheu a blusa que tinha ganho dela no natal, e uma calça leve, deixou o cabelo secar sozinho.
Andou mais uma vez pela casa, vendo se estava tudo no lugar, a campanhia tocou, era a comida que havia chegado. Pagou ao entregador, e agradeceu sorrindo.
Foi a cozinha, olhou o relógio, estava quase na hora de ela chegar.
Ficou sorrindo sozinho, com uma cara de bobo, lembrando dela, e imaginando o rosto dela quando ela chegasse e visse tudo aquilo. Ela sempre reclamava que ele não era lá muito romântico. Talvez ele apenas não soubesse como se expressar. Pediu ajuda a mãe e as irmãs, para preparar tudo aquilo, sozinho não teria pensado em tudo.
Olhou mais uma vez no relógio, ela estava demorando um pouco mais hoje, ansioso, continuou a esperar.

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Estacionou o carro no prédio, a vaga apertada, estava querendo falar com a sindica para trocar havia um tempo.
Estava cansada, queria tomar um bom banho.
Moravam no segundo andar, foi de escada como sempre, e lembrou de que toda vez ele gostava de esperar o elevador, e ela sempre dizia: “mas são só dois andares”, e ele sempre a puxava para dentro do elevador dizendo: “pois é, são apenas dois andares”, sorria. Chegou a porta de casa, ouviu o som bem baixinho dentro, não desconfiou de nada, não identificou a musica. Virou a chave, abriu a porta. O rosto abriu-se em sorriso, o cansaço ficou do lado de fora.

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Os olhos dos dois se encontraram, o mundo parou novamente.
Sinestesia percorria o corpo dela.
E a mesma certeza sentida um ano atrás por ele, era a certeza sentida agora. Sim, era ela.
O mundo lá fora parou, o mundo lá dentro explodia.