terça-feira, 18 de maio de 2010

O homem que via de mais.

Andava em silêncio pelas ruas da cidade, cheias de gente, procurava ser o mais discreto que conseguisse, e conseguia. Ninguém o notava. E ele via, o mundo inteiro ao redor explodindo em vida, histórias e estórias, que ocorriam ali, naquele exato momento, e não ficavam eternizadas depois, nas telas de cinema, ou nas cores de uma fotografia. Ficavam paradas na cabeça dele, nas lembranças dele, algumas um tanto borradas, a maioria em preto e branco. Era um observador. E via tudo. As dores, lágrimas, e principalmente os sorrisos. A timidez latente em se sustentar olhares, a vida que passava calmamente, com ares frescos ao redor.
Guardava tudo aquilo numa caixinha, pois tudo era precioso de mais, para se deixar ao vento. Em dias de chuva, impossibilitado de ir a rua, ficava olhando pela janela do seu apartamento, vendo o céu, que parecia cair, sem se importar com aquela mesma vida que passava nas ruas, no chão. Viu tanta coisa, em tantos anos. Chorou com os amores criados alí, na hora, na rua, de vida. Com as despedidas interminavéis de milhares de abraços que partiam-se em dois, indo braços para lados opostos, carregando nas mãos corações que sofriam por ter que ir embora. Viu em um dia qualquer, alguém que vendia sonhos na praça, sonhos estes que eram pescados mais cedo no rio. E ficou de longe, vendo as pessoas que compravam estes sonhos, depois de dois passos verem os sonhos desaparecendo no ar. Isso era agora tão comum. 
Como vibrou, no dia em que naquelas mesmas ruas, junto com milhares de outras pessoas, que não o viam, viram juntos o carnaval passar, trazendo alegria, levando tristezas e deixando saudades. Perdeu a cabeça, e por estes dias não viu mais nada.
Um dia cansou, de ver tanto, e não viver nada. E assim cansado, pegou a caixinha onde guardava todas essas lembranças de outrem, abriu e jogou seu conteúdo ao vento, deixando este se espalhar, por aquelas mesmas ruas que vira tanto. Não levou bagagem, nem roupa. Não deixou saudades, nem lembranças. Saiu de casa, e foi pro mar. Para não ver nada, pois precisava agora, se encontrar.

17 comentários:

Camila Chaves, disse...

Adorei o texto.
É hora de ir para fora!
Beijos

Bruno disse...

Volta e meia me pego andando na rua e observando as pessoas rirem das conversas de todo dia, comprarem pipoca no ponto de ônibus, carregarem sacolas ansiosas que cheguem logo em casa para serem abertas...

Laura K. disse...

Como sempre, palavras encantadoras. Queria ser mais observadora. Observo de menos, e faço a maioria das coisas sem pensar! (:

afense disse...

Observar é bom, mas não é o suficiente.
Bom mesmo é ser protagonista.

Lindo o texto, Lua. Como todos os seus textos são.

:*

Franzinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Múcio L Góes disse...

textaço! =]

bjo.

visse!

Mundo do Gê disse...

Seus textos, são realmente muito bons, sempre que venho aqui leio seu texto, depois volto e leio novamente, e não me canso de ler, aí quando vou dedilhar algum comentário fico sem saber o que dizer...Gosto muito!É bem simples o que digo mas é verdade, gosto de coisas simples...A sua capacidade de escrever observações de outros e expressar sentimentos, são sentidos por mim pelas suas tão bem escritas palavras...
Abração!

deh ramos disse...

Que lindo.. Posso dizer que imaginei todas as cenas, com tanta perfeiçao que sou capaz até de reconhecê-lo nas ruas [ou no mar].

Lindo flor!

Hélder disse...

Eu me identifiquei com esse sujeito, principalmente na observação.

É hora de ir para fora! [2]

Lindo texto, "que novidade".
rsrsrs

;*

Marquês de Par At Hibe disse...

De um lado a metáfora, do outro lado a surpresa. Quem é esse que olha, olha, olha, e continua olhando? E que recolhe as lembranças dos outros numa caixa? É o tempo? É a morte? É o imposto de renda? Alguma coisa é?
Do outro lado é a surpresa. Engraçada a maneira como a surpresa quase sempre penetra no teu texto. Aqui, o observador, depois de uma vida inteira observando, não sai para a rua, ali para onde acontecia o que ele observava. Ele vai "para o mar", para longe, viver justamente o que ele nunca vira. Por quê?
Tantas perguntas...

Impoesia sim disse...

Ninguém o notava.
Via tudo.
Perdeu a cabeça.
Cansou de ver e não viver.
Precisava agora se encontrar.
Cada vez mais se manifesta uma sensibilidade em harmonia com outras sensibilidades. Desta multiplicidade de olhares num só olhar é que é feito algo magnífico, onde várias pessoas de todas as distâncias se encontram e se reconhecem como compatriotas. Tenho encontrado aqui, aquilo que muitas pessoas sem nenhuma relação íntima podem compartilhar nas lonjuras imensuráveis em que se encontram. Se encontrar numa alegria, a de se ver mais uma vez por outros olhos, de ser tateado na distância.
Grato pelo texto, Lua crescente!

Franzinha disse...

Muito tomar o seu café!
Estarei sempre por aqui.

Encantadora!!!!!!!!!!!!!!

Beijos

. fina flor . disse...

a terapia, para alguns, é sinônimo desse mar.... estou remando nela... rs*

beijos, querida

MM.

Guilherme Navarro disse...

Com palavras singelas e muito bem posicionadas, tratou de uma insatisfação da qual muitos compartilham. Muito legal, frequentarei mais o blog.

Lerri disse...

Do que adianta guardar memórias de outros sem fazer isso com as próprias da sua vida?
Muito bom o texto, parabéns mesmo!

a cogumelo. disse...

Café muito bom, tão bom que não a comentário melhor do que elogia-lo.

aluisio martins disse...

lindo texto. ver demais é dor mais acertada, melhor que não ver nada.