quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sobre a mulher de Sartre, que não era Beauvoir.

"Jules Renard dissera ao filho: Estuda uma só mulher, mas estuda‑a bem, e conhecerás a mulher."
Trilogia Caminhos da Liberdade. Livro Segundo: Sursis.
Jean Paul Sartre

E quando sentia vontade de chorar, corria para o banheiro, arrancava a roupa, de uma vez só, entrava naquela água gelada que jorrava da parede, desejando apenas ir embora, pelo ralo, com a água, as lágrimas, e tudo o mais.
Saia daquele diluvio, colocava um vestido qualquer, dentre os tantos floridos, ia as ruas, andar, e esquecer da imensidão da casa. Em seu caminho, olhavam para ela, Homens, Mulheres, Crianças, Cachorros, Idosos, e ela, apenas ela, não via ninguém. Para si apenas caminhava, para os outros parecia um furacão, reclamando para ela todas as atenções, apenas com seu cheiro, sua presença.
Sim, ela caminhava, sem rumo, sonhos ou lugar onde pudesse chegar. Passava por pontes, e carros, se dirigindo até o lugar onde tudo começou. O tudo incluía a cidade, e os sorrisos que já foram dado em vida.
O marco 0 não era tão longe, mas parecia uma eternidade até chegar lá. E ela seguia. O seu mundo, era agora (ou sempre fora?) preto e branco, e sem som. Ao pisar no chão, daquelas ruas antigas, saudosismo invadia o peito, e entranhava mais profundo nela, dor. Dor da consciência que tinha de si e que dia a dia vinha se confirmando. Lembranças corriam em volta dela, tão convidativa. Era só chegar a praça da torre com o relógio, e tudo parava. Pessoas, pombos e vigias. A fonte ligada, jogava água ao redor, e ela, agora sozinha, lá em cima dançava, para ela mesma, e mais ninguém, e quem a via, que ela não via, pensava em para-la, ou num átimo de loucura, a ela se juntar, naquele mundo preto e branco, tão colorido por fora, para os outros, mas imensamente vazio por dentro, aos olhos dela. A cidade para ela estava vazia, mas mesmo vazia, ausente, a presença era forte de mais, as lembranças doíam. E aquela cidade vazia, tinha nos muros de cada rua, pichações que diziam para ela ir embora, sair dali, porque era a única chance, sair da cidade, ou da vida. Um dia ela sairia, da cidade, do país, e em um lugar tão frio como o mundo dela, ela sentiria a necessidade de sair agora do mundo, porque não dava mais, tudo sufocava, então ela corria. Trocou as lentes, várias vezes, com várias pessoas, em vários lugares, mas o que estavam quebrados, não eram os óculos e as lentes, e sim os seus olhos, que há muito eram tais quais os de um tal assum preto, do sertão quente, do chão rachado, do amor perdido. Os olhos dela, dois olhos negros, eram tristes, enigmáticos, opacos, pensativos, e um dia, enquanto trocava as lentes, um moço dissera a ela, que nascera com ela os únicos olhos do mundo que demonstravam sentimento. Os olhos dela, doíam, choviam. Lágrimas negras. Para ela, por ela, dela, e mais ninguém. A dor era tanta, que não tinha jeito nem hora. Doía só, e ela apenas cansada, deixava doendo, doer por fim. Um dia, ela pensou que esse fim tinha chegado, e nesse dia, disseram que ela sorria, quando o vazio chegou. O mundo vira sim, mas para o mundo, o que o mundo via, era ela se enchendo, de beleza e vida. E tantos queriam apenas uma oportunidade, de entrar naqueles olhos negros, de fazer morada naquele corpo, de levar algumas cores para aquele mundo. Mas ninguém via, que por dentro ela estava cada vez mais se esvaziando, de vontades, vida, sentimento, lágrimas. Era tudo negro por dentro, e branco por fora. Era tudo preto e branco, no mundo dela. Que um dia, lá longe, fora grande o bastante, pra caber mais alguém, e mais alguns planos, sonhos, crianças, cachorros, casas, e apenas uma música, que ainda hoje, relembra aqueles velhos tempos, em que ela, linda e nua, chegava no céu pra mostrar evoluções. 
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Hoje eu a vi, caminhando ao longe, saí correndo atrás dela, para conversar um pouco, pois ela me intrigava tanto. Não sei como, ela me deu um pouco de atenção, sentamos em um lugar que eu descobri recentemente, uma maquina do tempo, no coração da praça do tempo Recifense, cheio de espelhos, e de clima agradável, eu levei-a lá, com a esperança de que pudéssemos ser transportados, para o passado ou o futuro. Sentamos, puxei a cadeira pra ela, achei que ela gostava de gentilezas, talvez eu tenha me enganado, ou não. Do balcão, o moço perguntou o que iríamos beber, pedi uma cerveja bem gelada, ela pediu um expresso, bem forte. E começamos a conversar.
Entre um gole e outro de café, ela me dizia que se soubesse o quanto dói a vida, essa dor tão doída que ela trazia no peito, não doeria tanto assim. E quanto mais ela falava, mais eu me perdia, naqueles olhos, boca, narinas e orelha, naquele perfume forte, e minha garganta seca, pedia um cigarro, para tragar. Ela dizia mais, que esse mundo não era dela, e eu dizia, aqui é festa amor, e ela respondia, e a tristeza em minha vida? E eu perto dela, me sentia tão pequeno, apenas um menino, diante de uma mulher.
E eu perguntava a ela, daquela menina de alguns anos atrás, que todos diziam encantadora e doce, alguém que marcava, cativava. E ela dizia, que não sabia quando, mas aquela menina resolvera ir embora, passear um pouco, e não deixou endereço, mas de vez em quando ela voltava, e reclamava para si, todos os textos, atenções e prosas. E quanto mais ela falava, eu me perdia. Mas de repente, tão de repente, vislumbrei um sorriso naquele rosto, ela tentou disfarçar, mas não conseguiu, e os sorrisos jorravam, metamorfoseando aquela mulher, a cada momento, sim, eu via diante de mim as 151 mil pessoas diferentes que haviam ali dentro, eu via o passado, o presente, e o futuro. O café dela acabou, ela pediu um vinho, não estranhei, ela estava lá, isso é o que importava. Conversamos a noite inteira, e pela maquina do tempo, passaram mulheres dos anos 50, e homens do século 22. E ela continuava ali, e eu, cada vez mais perdido. Depois de tantas cervejas e vinhos, convidei-a a passear comigo, pela Praça do Tempo Recifense, para apreciar a luz. Caminhávamos, ela mais a frente, e eu observando, as pessoas ao redor, e a luz, invadindo, e devastando-a, e ela não percebia. Aquela presença era tão forte. Caminhávamos, sorriamos. A vida não importava mais, eu estava ali, ela estava ali. Estávamos. Apenas isso. E eu me perdendo, descobri que ela brincava comigo, e eu era apenas mais um personagem, de dentro, dela, das 151 mil pessoas diferentes, que passeavam ali dentro, ali fora, pela Praça do Tempo, pela Times Square.


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Indo pra fora.
Para ler, ouvir, sentir:
Marshall Berman - Espetáculos em Times Square (ler)
Franz Kafka - A Metamorfose (ler)
Jean Paul Sartre - Trilogia Caminhos da Liberdade: (ler)
1 - A Idade da Razão.
2 - Sursis.
3 - Com a Morte na Alma.
Chico Buarque - A televisão (ouvir/sentir)
Caetano Veloso - A tua presença morena (ouvir/sentir)
Nelson Gonçalves - Naquela Mesa (ouvir/sentir)
3 na massa - na confraria das sedutoras (ouvir, o albúm inteiro)
Otto - Certa manhã acordei de sonhos intraquilos (ouvir, o albúm inteiro)

Lua,

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

2.

*postagens aleatórias de 2010.

Saí sim. Todos os dias. Correndo. De tudo, todos, e principalmente, de você. Fugi tantas vezes, nas mais das vezes, quando eu via você olhando pra mim, me cobrando respostas, medos, sonhos. Era tudo ilusão, e sempre tive medo que você descobrisse isso, descobrisse o quão pequeno era o nós dois. Abraços partidos, planos acabados. A vida continuaria sim, assim, só eu, só você. Um dia, quem sabe, talvez, você encontrasse um novo alguém, e outros novos sentidos. Pois eu apenas estava cansado, e pretendia ficar parado, vendo o tempo passar, até quando? Outro dia, senti o teu perfume na rua, e isso me despertou aquelas lembranças mais perdidas, do tempo em que olhar o nosso reflexo em vitrines de lojas fazia sentido. Do tempo em que fugíamos do mundo, para lugares onde só haveria eu e você, e ficavamos juntos, por horas, e nada mais importava tanto, porque lá fora a vida seguia, e entre eu e você o mundo explodia. Sim, explodimos juntos, mas tudo isso passou. Você passou por mim, não me reconheceu, apenas passou. E não importou mais para mim, apenas passou. Descobri novas cores, novos alguéns, novos gostos, cheiros e sensações, coisas que pareciam muito pequenas para você. Descobri a grandeza que há nas pequenas coisas, pequenas atenções. Agora, essas coisas não importam tanto. Nada muda tanto. Você está em algum submundo, e eu continuo, sobre viver, vivendo.

Sim.
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"quando eu saí da tua vida, bati a porta, saí morrendo de medo, do desejo, do desejo de ficar."
O leite - Otto.

(doendo)