sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sobre caminhar.

Há vinte anos que ele passa por aqui, por estas mesmas ruas, por estas mesmas pedras. Dias de cabeça erguida, contemplando o sol. Dias se protegendo embaixo de um guarda-chuva. Dias correndo na chuva, dias sorrindo sem sal.
Ontem ele não passou. Então o mundo saiu do lugar. Todas as cores entraram em confusão. Todas as vontades se esvaneceram. Todos os sonhos se tornaram apenas lembranças. O mundo não girou. Ficou parado, como que na expectativa, de sentir sobre ele aqueles mesmos pés, agora cansados, agora leves, agora devagar. 
Os pés não passaram, e em algum lugar do tempo partido, um coração desacelerava dentro do peito, ameaçando parar, e em um rápido momento de lucidez, os olhos se voltaram para a conflûencia de nuvens ao sol. Um último desejo, que não tinha mais sentido em ser, o de virar nuvem, para alguém. Não existia mais alguém, não existia mais os sonhos, todos foram banidos, e o mundo ficou novamente em cores de Chaplin. Mas ainda haviam os sorrisos, ainda que cansados, ainda que borrados, ou até mesmo forçados. Ainda havia força, para caminhar, todos os dias, pelo mesmo lugar. 
Há vinte anos que ele passou por aqui. Construindo no dia-a-dia a força para continuar a caminhar. 
Eu da janela, fiquei esperando ele passar. Não, ele não passou na rua ontem, também não passou dentro. Olhei, olhei, sorri. Ele foi embora. No tempo errado meu, no tempo certo dele. Nos olhos cansados, inexpressivos. Guardados. Guardei as lembranças de vinte anos, dentro de mim. 
Hoje mais uma vez é o último dia, e hoje eu não sinto dor por isso. Tenho a certeza que amanhã vou abrir os olhos, e será o primeiro dia. O primeiro, de um ano inteiro. O primeiro dia, de sol ou chuva. O primeiro dia de 365 outros para caminhar nesse presente que é a vida.
Enquanto uns acabam sua caminhada, outros começam agora, e outros estão no caminho. A vida não para. Não por acaso estamos aqui.


Estamos?
Estou?
Estive?
Estarei?


Estações. O tempo passa por nós, a cada segundo. Não adianta tentar parar o tempo, tentar partir o indivisivel. Não estamos sós. Mais vinte anos estão por vir. 

Obrigada.

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Luiza.