quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Série: Amor em 14 músicas - Faixa 1

“... escuto a correria da cidade, que arde e apressa o dia de amanhã... o trânsito contorna a nossa cama, reclama, do nosso eterno espreguiçar, no colo da bem vinda companheira, no corpo do bendito violão ...”
Faixa 1: Samba e Amor (Compositor Chico Buarque de Holanda)
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Estavam na sala da casa de um casal, amigo dos dois, o casal já tinha ido para o quarto havia um bom tempo, e tinham avisado que o outro quarto estaria disponível para eles. Mesmo com esse aviso, estavam na sala, ainda, ou durante a noite inteira, não importava. Sentados no sofá, meio tímidos, meio sem saber como agir, que regras seguirem, beijaram-se, e nem perceberam quando a manga do vestido dela escorregou para o braço deixando o ombro a mostra, a essa altura já estavam deitados no sofá, mas apenas deitados, dormindo. Ainda de madrugada foram despertos pelo amigo dos dois que tinha ido a cozinha tomar água, e viu-os deitados no sofá. Insistiu para que fossem para o segundo quarto, e assim foram. Não sabiam como agir, tudo era muito novo, muito bonito, muito simples, e leve. O quarto tinha uma cama e uma bi-cama, ele ofereceu a cama para ela, que aceitou, e deitou-se na bi-cama, procurando respeitá-la, como aqueles cavalheiros a moda antiga. Adormeceram de mãos dadas, como se não quisessem nunca mais se separar, e pelas mãos estariam juntos. A cidade já começava a se movimentar quando acordaram, na verdade ela acordou primeiro, e ficou olhando ele dormir, como faria muitas outras vezes depois desse dia. Mirou cada expressão que ele fazia, cada trejeito com a boca, cada sorriso que parecia desenhar-se naquele rosto. Não se sabe quanto tempo ela ficou observando-o, até que ele acordou, e ela furtivamente desceu para a bi-cama sorrindo. Abraçaram-se, deram um beijo de bom dia, mesmo sem os dentes escovados, como fariam também muitas outras vezes depois desse dia. Soltaram-se do abraço e sorriram juntos, e ele falou:
- Tenho algo para dizer que senti vontade de dizer desde a primeira vez que nos abraçamos.
- Eu já imagino o que seja. – disse ela, e realmente sabia, posto que sentira a vontade de dizer a mesma coisa, desde o primeiro abraço.
- Eu te amo. – disse ele.
Ela sorriu, e falou baixinho no ouvido dele:
- Eu também te amo, e senti vontade de dizer isso desde aquele dia, desde o primeiro abraço. Eu sempre soube que era você.
- Quando soltamos daquele primeiro abraço, e você entrou no carro do casal amigo seu, eu peguei o primeiro taxi que vi e pedi para que me levasse para casa, mas eu não disse onde era a minha casa, e eu não sei como, ou porque, eu só fazia chorar, e ainda não sabendo como ou porque o motorista me levou justamente para perto da minha casa, desci do táxi, andei ainda uma rua, entrei em casa me sentindo meio atordoado ainda, descalcei o sapato, e pus o pé no chão. Então as coisas começaram a fazer mais sentido e eu fui ouvindo no ar uma melodia, qualquer dia te falo mais sobre isso.
Sorriram juntos, nada no mundo importava tanto, o que realmente importava cabia nas mãos dadas, no corpo perto um do outro, no cheiro, no fato de acordar. Então, o mundo do lado de fora havia parado, carros, pessoas, cachorros, pássaros. A vida lá fora estava parada, pois toda a intensidade do mundo naquela manhã morava dentro daquele quarto emprestado, na certeza de duas crianças, que haviam se conhecido, ou na verdade, reconhecido apenas quinze dias antes. O mundo dentro daquele quarto era amor.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

De onde será que a felicidade vem?

Olhou para todos os lados tentando descobrir de onde a felicidade vinha e tudo o que descobriu foi que a vida é feita de infinitas possibilidades.

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Conversavam na sala de casa quando ela disse que queria ser mãe com no máximo 25 anos. Ele não aceitou, brigou, discutiu. Não queria uma irmã que fosse mãe solteira.

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Entendia que a vida era feita de caminhos, e que todas as coisas que já tinham acontecido foram importantes para ser quem era agora.

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Ela tentou explicar que independente de um marido ou um pai, seu filho poderia ser criado sim, e muito bem criado por sinal. Ele rebatia que a criança precisaria de uma estrutura, de uma família.

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Se sentia bem com quem era, se voltasse atrás teria feito tudo de novo, sem mudar uma virgula em sua vida.

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Queria que ele entendesse que uma mãe e um filho podem ser uma família. Queria mostrar a todo custo que ela estava errada.

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Acordou sorrindo, olhou pro céu e viu o tempo azul.

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Não tinha jeito, não tinha acordo, para ele era aquilo e ponto final. Ela se sentiu ferida por não ter seu ponto de vista respeitado, visto que as cosmovisões eram diferentes, e nem por isso eram erradas.

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Chorou de alegria nesse dia, pois...

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Ainda tentou explicar o conceito de etnocentrismo e relativismo cultural. Para ele o ponto final já tinha sido dado dois parágrafos antes.

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... descobriu que estava grávida.

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Desistiu de tentar mostrar o seu lado, simplesmente foi viver a sua vida, seus valores e seu mundo. Ele ficou lá, no mundo dele, que era tão pequeno e tão grande, assim como o mundo dela.

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Por mais que tentasse, nunca conseguiu expressar em palavras o que sentira quando soubera que iria ser mãe.

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A vida trouxe muita coisa, para cada um dos dois.

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O pai da criança decidiu ir embora, sumir da vida dela e do filho.

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Ela se formou, ele também.

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Decidiu criar o filho sozinha, seria pai e mãe.

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Ela fez mestrado, ele foi trabalhar na industria.

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Viveu os nove melhores meses de sua vida.

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Ela engravidou antes do doutorado, como tinha planejado. Ele comprou um apartamento caro em um lugar bom, pois pensava em casar.

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Todos os dias acordava feliz.

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A criança nasceu. Ele se casou.

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A criança crescia dentro dela.

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Conseguiu comprar uma casinha, num subúrbio, o que importava é que era própria. Ele mudou para um apartamento maior, planejava ter filhos.

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A criança nasceu. Foi o dia mais feliz da vida dela.

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A criança crescia, assim como as flores no jardim da casa própria. Depois de dois anos, conforme tinha planejado, foi pai.

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Descobriu...

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Depois da vida inteira. Ela tinha uma vida simples, sem muitos luxos, um filho grande, uma família de dois, bonita. Ele tinha a vida dele, casado, com filhos, não lhes faltava nada. Ela era feliz. Ele era feliz. Cada um na sua vida, nos seus caminhos.

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...de onde vinha a felicidade.


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título e texto inspirado em uma frase dessa música, e de uma conversa que tive hoje.
lua durand

domingo, 25 de setembro de 2011

Sobre Caminhos.

Respirou fundo quantas vezes achou necessário para se sentir preenchido. Sentia falta de ar, sentia o mundo comprimindo. Sentia que estava no lugar errado, na hora errada, no dia errado, na vida certa. Caminhou até onde os seus pés o levaram, e quando estancou o corpo a única coisa que viu foi uma cadeira, sentou-se. À sua frente contemplava o mundo, e todos os caminhos pelos quais a partir desse momento poderia seguir. Percebeu que estava de frente para a vida, com todas as suas infinitas possibilidades, ainda assim não sentiu medo. Teve sono e dormiu. Sonhou que era uma árvore, e sendo árvore se ramificava em muitos galhos, a direção era o céu. Sentiu a vida correndo pelo seu corpo, e compreendeu o que queria dizer as infinitas possibilidades dos caminhos abertos à sua frente. Cada galho que saia em direção ao céu, não encontrando a luz do sol, estancava e se ramificava por outro lado, aqueles que ficavam no escuro também faziam parte de si e dos caminhos. Compreendeu então que apesar de saber que tinha infinitas possibilidades a seguir não saberia o que estas lhe reservaram se não escolhesse seguir por elas, não saberia se encontraria o sol ou a escuridão se não tivesse coragem de seguir por elas. Foi aí então que sentiu medo. Medo pela incerteza dos caminhos que se abriam, mas não podia mais ficar parado pois o tempo, sábio senhor da vida, corria em volta dele, fechando o cerco e dizendo para ele se movimentar. Resolveu não pensar, e fazer como fizera pra chegar até ali, fechar os olhos e deixar os pés seguirem. Sabia sim, que chegaria algum dia, a algum lugar. Talvez esse fosse o objetivo, ou talvez descobrisse que no fim o objetivo era caminhar. Andou, andou, andou, andou. Percorreu vários caminhos, e assim como a árvore do sonho, estancou em alguns e se ramificou para outros. Descobriu que mesmo na escuridão, ainda tinha luz a se olhar, a luz da escuridão era o aprendizado que este caminho trazia consigo, ensinando, modelando, marcando, ferindo... Então vinha o tempo e curava a dor. E ele seguia novamente. Em um, dentre tantos caminhos que foram percorridos, conheceu a música que havia presente no silêncio. Se apaixonou. E descobriu que não podia viver a vida sem o som do silêncio, mas sabia que não podia parar, guardou consigo o que pôde, e continuou. Conheceu em outros caminhos o mar, aí descobriu o Amor. Quis levar o mar inteiro consigo, tentou, tentou, tentou e... não conseguiu. Guardou novamente o que pôde e seguiu. De olhos fechados e coração aberto, conheceu tanta coisa, tantos lugares, tantas pessoas. Seguiu seu caminho certo de que chegaria um dia enfim ao fim. E chegou. Chegou velho, cansado e sorrindo. Ainda de olhos fechados e agora de alma leve. A leveza foi o ultimo caminho que percorreu, deixando pra trás todo o peso dessa vida sentiu que seus pés queriam parar. Parou em um dia de sol de data não especificada. Teve coragem de abrir os olhos. Abriu. Encegueceu de tanta luz, e de seus olhos cegos e cansados caia o mar que guardou n'alma. E da sua alma saia a música contida no silêncio, lugar onde descobrira o amor. Não morreu. A alma se expandiu tanto que soltou-se do corpo como luz, e nesse dia disseram que a noite parecia dia. O corpo de tão cansado tombou ao chão, voltou à terra, e de lá brotou novamente, como a árvore do sonho, crescendo, florescendo, frutificando e seguindo, por e para todos os caminhos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Bonita de Pedra e Céu.

Todas as águas do mundo saiam dos olhos dela. Ela chovia, desaguava, corria, parava, caía, ela chorava. Em algum lugar do tempo, o parado deu lugar ao partido. Tudo o que havia de sólido se desmanchou no ar. A vida como ela era se tornou insustentavel. O coração de amarelo de outrora, chegara de uma vez por todas ao seu fim. O santo havia quebrado, de uma vez só, e sempre.
Doeu, doeu, doeu, doía tanto agora. Que ela não sabia outra coisa a fazer, se não sentir. Sentiu tanto que acabou perdendo o sono, a fome, a vontade de ser, e inexistiu. Disseram que chovia no céu a partir dos olhos dela, no dia em que o tempo se partiu.

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"...se tardasse voltaria, no arrudeio que se fez, lembra aquele castelinho? moraria, moraria..."
*o titulo e esse trecho entre aspas foram tirados da musica de Junio Barreto, Bonita de Pedra e Céu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Salgada.

Um homem com a pressão alta deu entrada na emergência de um hospital de grande porte. Todos os sintomas de um mal estar o acometiam, e ainda assim ele não sabia explicar o que tinha. De inicio o médico achou que era mais um caso como os outros, receitaria uns remedios, solicitaria exames, tudo se resolveria, e o mundo ganharia mais um hipertenso controlado.

No consultório:

- Diga-me: O que te trouxe aqui?
- Doutor, eu não sei explicar.

- Vamos homem, o que você esta sentindo?
- A verdade é que eu não sinto mais.

- Insensibilidade? Na pele?
- À flor da pele.

- Talvez um dermatologista possa lhe ajudar.
- Talvez ninguém possa me ajudar.

(em todo o momento da consulta os olhos de ambos não se encontraram, o médico fitava o prontuario, enquanto o paciente olhava a parede)

- Como esta sua alimentação?
- Quando eu lembro, ela existe.

- Carência de vitaminas?
- A...(mor)

- Sente alguma coisa, algum gosto na boca?
- Salgado.

- Tem abusado do sal?
- Carrego o mar dentro de mim.

- Como assim?
(o médico levantou os olhos, mas ainda assim não conseguiu encarar o paciente)
- É saudade, Doutor. Salgada.

- ...
- E dói, viu? Como dói. Aperta o peito, consome o sono. E dói.

-Talvez alguns remédios para dormir, ou algo para a ansiedade.
- Talvez, doutor... talvez.

(o silêncio invade a sala, e o ambiente se torna insustentavel, o Paciente levanta-se dando a consulta por encerrada, deixava o consultório com a certeza de não ter cura. Ao chegar a porta, virou-se ainda por um momento, os olhares de ambos se cruzaram, o Médico então abaixou a cabeça, o Paciente fechou a porta e nunca mais voltou)

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"...que doce agrado é o mar..."

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Coração Amarelo.

Olhava diretamente nos olhos dela, sem medo de parecer invasivo. Olhava tentando mergulhar. Mergulhar para compreender o que é aquilo que chamam de saudade. Olhava-a dos olhos para dentro, porque conhecia cada milimetro do corpo fora, mas até então sabia que só uma vez alguém de fato conseguiu chegar dentro. Olhava fixamente para ela, olhava, e sabia que ela não via, não ouvia, e o pior de tudo... não sorria.
Para além da saudade, tentava entender o que tinha acontecido com os sorrisos, antes tão presentes, tão constantes, desabrochados como flor. Olhava para ela, e ela não via, não vinha. Perguntava-se então onde ela estava, e quais as cores do lugar que a abrigava agora, no instante em que a olhava. Então, lembrou-se assim de repente, de um fragmento, um bilhete, um pedaço de papel, uma pista, deixada por ela, que dizia mais ou menos assim:

"Onde derramei os meus olhos?
Talvez aí esteja também o meu coração,
Amarelo."

Onde então ela havia derramado os olhos? Decidiu procurar cada lágrima escoada por ela, para que juntando tudo desse em algum lugar, alguma cor, algum sorriso. Encontrou a primeira lágrima caída num passado distante, no primeiro choro. A partir de então achou que seria fácil reconstruir os caminhos, só depois se deu conta do oceano que ela tinha formado. Encontrou lágrimas de dor, de alegria, de tristezas, de felicidade plena, de emoção. Encontrou até algumas lágrimas derramadas no meio do campo de futebol, enquanto ela via o seu time do coração e da quarta divisão jogar. Todas as lágrimas que encontrou, colheu e guardou. Passando por todas, até chegar no passado recente, nas últimas lágrimas derramadas... a beira do rio Capibaribe. Observando de fora viu ali lágrimas de profunda significância, que de tão grande não consegue ser expressa em palavras. As lágrimas cairam no rio, se misturaram a ele, e quem via, poderia dizer até que o rio nascia na verdade era dos olhos dela, e de lá seguia todo o seu curso, para como dizem encontrar o rio Beberibe e formar o oceano Atlântico. E ele sabia agora, que tudo isso saia dela. Dos olhos dela. Da alma dela, que era um rio constante e perene, manso e com correnteza, com força e leveza, e que no fim, encontra o seu aprumo no mar.

Depois de tanta água pôde então perceber onde ela tinha derramado os olhos, e em meio a tanta água encontrou de fato o coração amarelo, como o sol. Tão bem guardado, preservado na verdade, porque nela era o que mais valia e era só o que ela tinha. 

Do coração chegou aos sorrisos que já foram dados em vida, e cada sorriso estampado, florido, sorrido, trazia um pouco de luz. E ficou espantado, enceguecido, com tanta claridade que a menina guardava, dentro do coração envelhecido, em meio às águas turvas do rio que desaguam no oceano inteiro.

Perdeu a visão e misturou os sentidos. Alguma coisa no silêncio fora quebrada. Ela se deu conta de que ele estava alí, no mundo dela. E ele viu então as cores, as duas cores que tingiam o mundo dela, o preto, o branco, a solidão. O santo se mexeu, quebrando mais uma vez o sagrado status do tempo parado. Ele estava lá, ela estava ali. Estavam. Livres de convenções e regras. Estavam. Apenas estavam. E foram, por não sei quanto tempo, amor(osidade).

"Carrego dentro do meu peito um coração amarelo feito o sol, e um pouco de alguém que nunca existiu."

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*trechos extraídos do texto Jardim de Inverno. 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Caminho das Águas.

"...amor não chora, que a hora é de deixar, o amor de agora, pra sempre ele ficar, eu quis ficar aqui, mas não podia, o meu caminho a ti, não conduzia, um rei mal coroado, não queria o amor em seu reinado, pois sabia não ia ser amado, amor não chora, eu volto um dia, um rei velho e cansado já morria, perdido em seu reinado, sem maria..."
Geraldo's Azevedo e Vandré - Canção da Despedida

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 - .a partir de agora é realidade. - 
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Pensou em correr, para o futuro, o passado, o presente, para todos os lados. Pensou em correr, para qualquer lugar, qualquer espaço, qualquer cercania. Pensou em correr e não parar mais. Pensou em correr, pois assim talvez quem sabe, em velocidade, num impulso, ao abrir os braços, pudesse voar. Pensou em correr. Pensou.

Pensou que ia morrer. Encomendou o caixão, escreveu a poesia, guardou o testamento. Deitou na cama, fechou os olhos, pensou que morria. E, nada.
    
Pensou que chovia. Ainda de olhos fechados, os ouvidos ficavam mais atentos. Então ouvia a água caindo do lado de fora do quarto. E de repente, se sentiu água. Abriu os olhos e foi pra chuva. Era água, e da água virou rio.

Sonhou que era rio. E como rio, passou várias vezes no mesmo lugar, até achar o caminho. E quando enfim achou, correu, com todas as forças, todas as gotas, todos os sonhos do mundo.

E no fim encontrou, encontrou o seu aprumo no mar.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Jardim de Inverno.

- Entre tantas coisas que tenho em mim, carrego dentro do peito um coração amarelo, feito o sol. -

 Queria parar o tempo, em um daqueles momentos que se dá vontade de morar. O tempo parado não seria no passado ou no futuro, seria no presente, seria sempre um presente. Dias de sol, dias de lua, a vida seguiria seu curso inalterável, e todos os outros nós viveríamos o que de fato haveria de existir.


Onde derramei os meus olhos?
Talvez, aí esteja também o meu coração.

Amarelo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ainda mais uma vez, O último dia.

Ou: Sobre a necessidade de renovar-se.
Ou ainda: Dormir, é morrer um pouco, a cada dia. 
Ou talvez: Pelo menos uma vez por ano chegamos ao fim de uma parte, e ao início de outra.

* Escrito originalmente no dia 30 de Setembro de 2010, durante uma aula de Sociologia da Arte.

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O coração para, enquanto a cidade esfria. Tudo cai. Mascaras, verdades e pessoas. A inexistência passa a ser verdade, para mim. O talvez que escondia infinitas possibilidades dói agora bem menos que o nunca mais que se faz presente em todos os lugares. A vida se esvai. Em mim, o preto e o branco se derramam feito água, e levam todas as cores do mundo.
A última valsa soa no ar, do último dia, do último pôr do sol. A vida segue o seu rumo, crianças brincam na rua, homens andam apressados, mulheres na beira do fogão, meninas suspiram na janela. Revisito tudo o que já passou nessa terra, me detenho nos dias de sol quente e coração rachado. O sol para, o coração seca o rio que não chegou a encontrar o seu aprumo no mar.

Nunca mais nessa vida eu vou ter novamente 19 anos de idade.
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(Recife, 11 de Fevereiro de 2011
A todos que por aqui passam, obrigada.
Lua.)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

1.

*postagens aleatórias de 2011.

Eletricidade, talvez seja essa a palavra que descreva melhor. Eletricidade percorria o corpo dela, a medida que ele se aproximava. Ela não parava. De um lado para o outro, aparentemente nervosa. Não, isso não é amor, muito menos a paixão do texto anterior, que é apenas ficção. Isso é sinestesia. E isso sim, é diferente. Vai além. Além do que se pode alcançar, em abraços, e juras, e caminhos. Sinestesia, que envolve o corpo todo, com tudo e mais. Sons, letras, gostos, cheiros, cores, sensações. O coração dela sai pela ponta dos dedos, ela é, em todo, coração. A cada pulsação um sentimento.
Perto de tu[do], palavras são apenas palavras, e cada minuto é tempo valioso quando usado pelo silêncio. A presença dele era tão forte, que desconstruia todos os muros e barreiras invisíveis que ela tinha [re]construido ao redor. E de repente, ele estava lá, no mundo dela. E ela não sabia como lidar com isso, e como sempre [como ultimamente] tentava fugir. Para onde? De quem? Até quando?
Ele sorria, leve, vento, voo, livre. Era um passáro completo. Era o vento, era conduzido por Oiá.
Sim, ele estava lá. Onde? Em todo lugar, em cada esquina, no mundo dela. Estava só, e sempre de passagem. Sim, ela sabia, e mesmo não fazia sentido, o futuro não existia ainda, o passado não mais. Tudo que havia era presente. E como presente, tinha que ser agradecido.
O agradecimento vinha na forma de sorriso, e da ponta dos dedos dela, tocando o rosto dele. Tudo, dizia mais ou menos assim:

"Obrigada por tu, e por tudo.
Obrigada pelos passos, pelo pouso, e pelo caminho.
Obrigada pela luz, pelas certezas, e incertezas,
Pelo carinho, doado, permutado,
Obrigada pela leveza, que é tu.
Pertinho, só em lembrar."

"A tua presença, é branca, verde, vermelha, azul e amarela"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tratado Infantil Sobre a Grandeza do Sentir.

Aos vinte anos, quando você pensa que já aprendeu alguma coisa na vida, e acha que não vai mais cometer as mesmas coisas, que agora já pode dar alguns passos. No meio do caminho, a passos firmes, você pisa em um chão em falso. Tropeça, se desequilibra, e cai. Alguns olham, muitos riem. Você se acha ridículo. Levanta. Talvez ria um pouco também, talvez não agora, mas um dia vai rir muito ainda. Você segue. Aprende de novo, e caminha. Aos 40 anos, as mesmas certezas, e a sensação de que a vida já trouxe muito, não vamos mais cair nos mesmos erros. O que dizer sobre os 55 anos? Tudo igual. Aos 70, aí sim, sorrimos à toa, com os erros cometidos durante a vida inteira, mas ainda assim não estamos imunes. Aos 99 anos de idade, Oscar Niemeyer, apaixonado, casou-se novamente.

Não por acaso, nos tornamos pessoas bobas, quando nos apaixonamos, ficamos em nossa maioria, desarmados, e em alguns casos, procuramos nos proteger, de que? De quem?
Tudo seria tão mais fácil, se soubéssemos desde a primeira vez, assumir nossos sentimentos, e falar a verdade, sem o medo de cair, ou o medo de parecer ridículo, bobo. Pois invariavelmente, nos tornaremos bobos, e seremos ridículos, a cada vez que nos apaixonarmos. 
E é isso o que ajuda a tornar a vida fantástica.
Não é apenas as atitudes, mas estar apaixonado envolve muito de sinestesia, no corpo todo, com tudo e mais.
Não, isso não é nenhum tratado, sobre estar apaixonado, ou apaixonar-se.
É apenas, o texto mais objetivo que eu consegui escrever em minha vida.

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(a partir de agora é ficção)

- Em algum lugar do tempo parado. -

alguém disse:
 olha, meu bem
 tô saindo exatamente agora porque tão buzinando aqui
 vou te pedir uma coisa
 que é uma coisa que eu quero pedir faz tempo
 na nossa próxima conversa
 seja objetiva.
 beijo.

alguém respondeu:
 eu vou ser. eu ia ser.

alguém disse:
 então treine pra quando eu voltar 
alguém respondeu:
 acho que não era pra falar.
 não, alguém
 enfim

alguém disse:
 não, nada de "não", nada de "enfim"
 deixe de frescura e converse comigo
 um beijo

- alguém disse ficou off-line.
alguém respondeu:
alguém 
o fato, que eu ia falar.
bom, serei objetiva, e é até melhor que você não esteja aí, para não ficar dizendo que eu dou voltas para falar as coisas, ou mandando eu ser objetiva, seu chato.
eu me apaixonei por você, antes mesmo de lhe conhecer, blá blá blá.
me apaixonei pelas letras, por uma parte de você
agora eu estou me achando ridícula, haha, mas não tem como não ser ridículo falando de coisas assim

[Alguém respondeu falou tudo, foi dormir com raiva de Alguém disse, e rindo de si mesma por se achar tão ridícula, mas o que poderia ela fazer? Apenas sorrir]
-


Não importa se você tem 20, 40, 55 ou 99 anos. Existem coisas, que não mudam. Para todas as outras, existe O Tempo.


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besos,
lua.