quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Coração Amarelo.

Olhava diretamente nos olhos dela, sem medo de parecer invasivo. Olhava tentando mergulhar. Mergulhar para compreender o que é aquilo que chamam de saudade. Olhava-a dos olhos para dentro, porque conhecia cada milimetro do corpo fora, mas até então sabia que só uma vez alguém de fato conseguiu chegar dentro. Olhava fixamente para ela, olhava, e sabia que ela não via, não ouvia, e o pior de tudo... não sorria.
Para além da saudade, tentava entender o que tinha acontecido com os sorrisos, antes tão presentes, tão constantes, desabrochados como flor. Olhava para ela, e ela não via, não vinha. Perguntava-se então onde ela estava, e quais as cores do lugar que a abrigava agora, no instante em que a olhava. Então, lembrou-se assim de repente, de um fragmento, um bilhete, um pedaço de papel, uma pista, deixada por ela, que dizia mais ou menos assim:

"Onde derramei os meus olhos?
Talvez aí esteja também o meu coração,
Amarelo."

Onde então ela havia derramado os olhos? Decidiu procurar cada lágrima escoada por ela, para que juntando tudo desse em algum lugar, alguma cor, algum sorriso. Encontrou a primeira lágrima caída num passado distante, no primeiro choro. A partir de então achou que seria fácil reconstruir os caminhos, só depois se deu conta do oceano que ela tinha formado. Encontrou lágrimas de dor, de alegria, de tristezas, de felicidade plena, de emoção. Encontrou até algumas lágrimas derramadas no meio do campo de futebol, enquanto ela via o seu time do coração e da quarta divisão jogar. Todas as lágrimas que encontrou, colheu e guardou. Passando por todas, até chegar no passado recente, nas últimas lágrimas derramadas... a beira do rio Capibaribe. Observando de fora viu ali lágrimas de profunda significância, que de tão grande não consegue ser expressa em palavras. As lágrimas cairam no rio, se misturaram a ele, e quem via, poderia dizer até que o rio nascia na verdade era dos olhos dela, e de lá seguia todo o seu curso, para como dizem encontrar o rio Beberibe e formar o oceano Atlântico. E ele sabia agora, que tudo isso saia dela. Dos olhos dela. Da alma dela, que era um rio constante e perene, manso e com correnteza, com força e leveza, e que no fim, encontra o seu aprumo no mar.

Depois de tanta água pôde então perceber onde ela tinha derramado os olhos, e em meio a tanta água encontrou de fato o coração amarelo, como o sol. Tão bem guardado, preservado na verdade, porque nela era o que mais valia e era só o que ela tinha. 

Do coração chegou aos sorrisos que já foram dados em vida, e cada sorriso estampado, florido, sorrido, trazia um pouco de luz. E ficou espantado, enceguecido, com tanta claridade que a menina guardava, dentro do coração envelhecido, em meio às águas turvas do rio que desaguam no oceano inteiro.

Perdeu a visão e misturou os sentidos. Alguma coisa no silêncio fora quebrada. Ela se deu conta de que ele estava alí, no mundo dela. E ele viu então as cores, as duas cores que tingiam o mundo dela, o preto, o branco, a solidão. O santo se mexeu, quebrando mais uma vez o sagrado status do tempo parado. Ele estava lá, ela estava ali. Estavam. Livres de convenções e regras. Estavam. Apenas estavam. E foram, por não sei quanto tempo, amor(osidade).

"Carrego dentro do meu peito um coração amarelo feito o sol, e um pouco de alguém que nunca existiu."

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*trechos extraídos do texto Jardim de Inverno. 

3 comentários:

Alexandre L'Omi L'Odò disse...

O rio segue o rumo... O rumo circular da vida e do tempo. Água é sem vaidade, apenas é.

L'Omi.

Sandro de Jucá - Sacerdote Babalorixá e Juremeiro disse...

Que saudade tenho hoje do colo de minha avó..Nas horas que estou chorando não tenho mas quem me acalentar.Aqueles olhos traduziam carinho e felicidade, aquelas mãos que me apontou o caminho e a verdade hoje só ...saudade, hoje ao lembrar de seus cabelos meus olhos chegam a suar,Em sua fé determinada em pensamentos e ações,hoje virou uma estrela que não posso mais alcançar, E posso sim se eu quizer em rogos de orações,Que falta me faz a velha bazú até em escrever seu nome choro, mas em meus sentimento peço á deus e imploro que minha mãe viva mas um pouquinho, ela é minha guerreira , sou descendente de constelação, uma brilha na terra é forte é sincera, a outra fica no céu iluminando emoção, Mas no hoje no agora estou me sentindo só, sem o ancouradouro de sonhos do colo de minha avó.

Maria Joana disse...

É lindo, Lua. Há tempos eu não vinha aqui e exatamente hoje, antes de ler esse post, estava numa discussão de "o que faz textos deixarem de ser apenas relatos de emoções para que sejam literatura? ".
Bom, você faz literatura, e isso não é pouco. Mesmo.