domingo, 25 de setembro de 2011

Sobre Caminhos.

Respirou fundo quantas vezes achou necessário para se sentir preenchido. Sentia falta de ar, sentia o mundo comprimindo. Sentia que estava no lugar errado, na hora errada, no dia errado, na vida certa. Caminhou até onde os seus pés o levaram, e quando estancou o corpo a única coisa que viu foi uma cadeira, sentou-se. À sua frente contemplava o mundo, e todos os caminhos pelos quais a partir desse momento poderia seguir. Percebeu que estava de frente para a vida, com todas as suas infinitas possibilidades, ainda assim não sentiu medo. Teve sono e dormiu. Sonhou que era uma árvore, e sendo árvore se ramificava em muitos galhos, a direção era o céu. Sentiu a vida correndo pelo seu corpo, e compreendeu o que queria dizer as infinitas possibilidades dos caminhos abertos à sua frente. Cada galho que saia em direção ao céu, não encontrando a luz do sol, estancava e se ramificava por outro lado, aqueles que ficavam no escuro também faziam parte de si e dos caminhos. Compreendeu então que apesar de saber que tinha infinitas possibilidades a seguir não saberia o que estas lhe reservaram se não escolhesse seguir por elas, não saberia se encontraria o sol ou a escuridão se não tivesse coragem de seguir por elas. Foi aí então que sentiu medo. Medo pela incerteza dos caminhos que se abriam, mas não podia mais ficar parado pois o tempo, sábio senhor da vida, corria em volta dele, fechando o cerco e dizendo para ele se movimentar. Resolveu não pensar, e fazer como fizera pra chegar até ali, fechar os olhos e deixar os pés seguirem. Sabia sim, que chegaria algum dia, a algum lugar. Talvez esse fosse o objetivo, ou talvez descobrisse que no fim o objetivo era caminhar. Andou, andou, andou, andou. Percorreu vários caminhos, e assim como a árvore do sonho, estancou em alguns e se ramificou para outros. Descobriu que mesmo na escuridão, ainda tinha luz a se olhar, a luz da escuridão era o aprendizado que este caminho trazia consigo, ensinando, modelando, marcando, ferindo... Então vinha o tempo e curava a dor. E ele seguia novamente. Em um, dentre tantos caminhos que foram percorridos, conheceu a música que havia presente no silêncio. Se apaixonou. E descobriu que não podia viver a vida sem o som do silêncio, mas sabia que não podia parar, guardou consigo o que pôde, e continuou. Conheceu em outros caminhos o mar, aí descobriu o Amor. Quis levar o mar inteiro consigo, tentou, tentou, tentou e... não conseguiu. Guardou novamente o que pôde e seguiu. De olhos fechados e coração aberto, conheceu tanta coisa, tantos lugares, tantas pessoas. Seguiu seu caminho certo de que chegaria um dia enfim ao fim. E chegou. Chegou velho, cansado e sorrindo. Ainda de olhos fechados e agora de alma leve. A leveza foi o ultimo caminho que percorreu, deixando pra trás todo o peso dessa vida sentiu que seus pés queriam parar. Parou em um dia de sol de data não especificada. Teve coragem de abrir os olhos. Abriu. Encegueceu de tanta luz, e de seus olhos cegos e cansados caia o mar que guardou n'alma. E da sua alma saia a música contida no silêncio, lugar onde descobrira o amor. Não morreu. A alma se expandiu tanto que soltou-se do corpo como luz, e nesse dia disseram que a noite parecia dia. O corpo de tão cansado tombou ao chão, voltou à terra, e de lá brotou novamente, como a árvore do sonho, crescendo, florescendo, frutificando e seguindo, por e para todos os caminhos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Bonita de Pedra e Céu.

Todas as águas do mundo saiam dos olhos dela. Ela chovia, desaguava, corria, parava, caía, ela chorava. Em algum lugar do tempo, o parado deu lugar ao partido. Tudo o que havia de sólido se desmanchou no ar. A vida como ela era se tornou insustentavel. O coração de amarelo de outrora, chegara de uma vez por todas ao seu fim. O santo havia quebrado, de uma vez só, e sempre.
Doeu, doeu, doeu, doía tanto agora. Que ela não sabia outra coisa a fazer, se não sentir. Sentiu tanto que acabou perdendo o sono, a fome, a vontade de ser, e inexistiu. Disseram que chovia no céu a partir dos olhos dela, no dia em que o tempo se partiu.

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"...se tardasse voltaria, no arrudeio que se fez, lembra aquele castelinho? moraria, moraria..."
*o titulo e esse trecho entre aspas foram tirados da musica de Junio Barreto, Bonita de Pedra e Céu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Salgada.

Um homem com a pressão alta deu entrada na emergência de um hospital de grande porte. Todos os sintomas de um mal estar o acometiam, e ainda assim ele não sabia explicar o que tinha. De inicio o médico achou que era mais um caso como os outros, receitaria uns remedios, solicitaria exames, tudo se resolveria, e o mundo ganharia mais um hipertenso controlado.

No consultório:

- Diga-me: O que te trouxe aqui?
- Doutor, eu não sei explicar.

- Vamos homem, o que você esta sentindo?
- A verdade é que eu não sinto mais.

- Insensibilidade? Na pele?
- À flor da pele.

- Talvez um dermatologista possa lhe ajudar.
- Talvez ninguém possa me ajudar.

(em todo o momento da consulta os olhos de ambos não se encontraram, o médico fitava o prontuario, enquanto o paciente olhava a parede)

- Como esta sua alimentação?
- Quando eu lembro, ela existe.

- Carência de vitaminas?
- A...(mor)

- Sente alguma coisa, algum gosto na boca?
- Salgado.

- Tem abusado do sal?
- Carrego o mar dentro de mim.

- Como assim?
(o médico levantou os olhos, mas ainda assim não conseguiu encarar o paciente)
- É saudade, Doutor. Salgada.

- ...
- E dói, viu? Como dói. Aperta o peito, consome o sono. E dói.

-Talvez alguns remédios para dormir, ou algo para a ansiedade.
- Talvez, doutor... talvez.

(o silêncio invade a sala, e o ambiente se torna insustentavel, o Paciente levanta-se dando a consulta por encerrada, deixava o consultório com a certeza de não ter cura. Ao chegar a porta, virou-se ainda por um momento, os olhares de ambos se cruzaram, o Médico então abaixou a cabeça, o Paciente fechou a porta e nunca mais voltou)

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"...que doce agrado é o mar..."