quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Série: Amor em 14 músicas - Faixa 1

“... escuto a correria da cidade, que arde e apressa o dia de amanhã... o trânsito contorna a nossa cama, reclama, do nosso eterno espreguiçar, no colo da bem vinda companheira, no corpo do bendito violão ...”
Faixa 1: Samba e Amor (Compositor Chico Buarque de Holanda)
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Estavam na sala da casa de um casal, amigo dos dois, o casal já tinha ido para o quarto havia um bom tempo, e tinham avisado que o outro quarto estaria disponível para eles. Mesmo com esse aviso, estavam na sala, ainda, ou durante a noite inteira, não importava. Sentados no sofá, meio tímidos, meio sem saber como agir, que regras seguirem, beijaram-se, e nem perceberam quando a manga do vestido dela escorregou para o braço deixando o ombro a mostra, a essa altura já estavam deitados no sofá, mas apenas deitados, dormindo. Ainda de madrugada foram despertos pelo amigo dos dois que tinha ido a cozinha tomar água, e viu-os deitados no sofá. Insistiu para que fossem para o segundo quarto, e assim foram. Não sabiam como agir, tudo era muito novo, muito bonito, muito simples, e leve. O quarto tinha uma cama e uma bi-cama, ele ofereceu a cama para ela, que aceitou, e deitou-se na bi-cama, procurando respeitá-la, como aqueles cavalheiros a moda antiga. Adormeceram de mãos dadas, como se não quisessem nunca mais se separar, e pelas mãos estariam juntos. A cidade já começava a se movimentar quando acordaram, na verdade ela acordou primeiro, e ficou olhando ele dormir, como faria muitas outras vezes depois desse dia. Mirou cada expressão que ele fazia, cada trejeito com a boca, cada sorriso que parecia desenhar-se naquele rosto. Não se sabe quanto tempo ela ficou observando-o, até que ele acordou, e ela furtivamente desceu para a bi-cama sorrindo. Abraçaram-se, deram um beijo de bom dia, mesmo sem os dentes escovados, como fariam também muitas outras vezes depois desse dia. Soltaram-se do abraço e sorriram juntos, e ele falou:
- Tenho algo para dizer que senti vontade de dizer desde a primeira vez que nos abraçamos.
- Eu já imagino o que seja. – disse ela, e realmente sabia, posto que sentira a vontade de dizer a mesma coisa, desde o primeiro abraço.
- Eu te amo. – disse ele.
Ela sorriu, e falou baixinho no ouvido dele:
- Eu também te amo, e senti vontade de dizer isso desde aquele dia, desde o primeiro abraço. Eu sempre soube que era você.
- Quando soltamos daquele primeiro abraço, e você entrou no carro do casal amigo seu, eu peguei o primeiro taxi que vi e pedi para que me levasse para casa, mas eu não disse onde era a minha casa, e eu não sei como, ou porque, eu só fazia chorar, e ainda não sabendo como ou porque o motorista me levou justamente para perto da minha casa, desci do táxi, andei ainda uma rua, entrei em casa me sentindo meio atordoado ainda, descalcei o sapato, e pus o pé no chão. Então as coisas começaram a fazer mais sentido e eu fui ouvindo no ar uma melodia, qualquer dia te falo mais sobre isso.
Sorriram juntos, nada no mundo importava tanto, o que realmente importava cabia nas mãos dadas, no corpo perto um do outro, no cheiro, no fato de acordar. Então, o mundo do lado de fora havia parado, carros, pessoas, cachorros, pássaros. A vida lá fora estava parada, pois toda a intensidade do mundo naquela manhã morava dentro daquele quarto emprestado, na certeza de duas crianças, que haviam se conhecido, ou na verdade, reconhecido apenas quinze dias antes. O mundo dentro daquele quarto era amor.