sábado, 16 de junho de 2012

Sobre café e saudades,

Enquanto fazia o café pensava na vida. Colocou a água no fogo, e lembrou de como parecia ferver o seu corpo naqueles anos. Pegou o pote de café e lembrou do cheiro do café que a Avó fazia quando ela era criança, quando ainda nem tomava café. Lembrou-se do cheiro, um cheiro gostoso de café sendo coado no coador de pano, já preto de tanta borra, e sentiu remorso por nunca ter experimentado o café da Avó, porque era criança, e seus gostos eram outros. Então pensou em quantos cafés já tinha perdido nessa vida, decidiu parar de pensar, para não ficar por ali mesmo. Pegou a colher de pau e o seu coador de pano, quase tão gasto quanto o da Avó das lembranças. Esperou a água esquentar e olhando as bolhinhas que subiam na água lembrou-se de quando a vida era vivida por entre copos de refrigerantes. Lembrou-se de fato do primeiro copo, do primeiro corpo, o primeiro amor. A água esquentou. Tirou do fogo, derramou devagar sobre o pó no coador, e fechou os olhos pra sentir o cheiro que subia fumegante. Sorriu. Lembrou do primeiro café feito com aquele coador, e da dica pra comprar a colher de pau. Enquanto apertava a borra com a colher, lembrou do sorriso e sorriu junto. Tudo parecia estar ali. O café feito, o cheiro forte. Encostou-se à pia com a primeira xícara, bebia devagar para apreciar o sabor e sentir a quentura, então lembrou dos filhos, onde estariam eles nesse momento? A menina provavelmente estaria na escola, aprendendo as primeiras letras, e o menino jogando futebol na casa dos amigos. Sorriu, imaginou que eles estariam bem. Encheu a segunda xícara e sentou no sofá, tentando lembrar nomes. O café acabou, e as lembranças vieram fortes, mais fortes que o café. Os filhos não existiam, tinham ficado apenas nos planos. Nos planos de dois que nunca chegaram a ser um. Sorriu novamente, fechou os olhos devagar, adormeceu ali mesmo. 

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(Escrito em algum tempo perdido do passado, estava vendo alguns textos antigos que tinha escrito e encontrei esse)

4 comentários:

Janayna disse...

lindo.

Tamara Esmin disse...

As tais lembranças que preenchem a alma.. Adorei o texto, o blog, o tema, não hesitei em seguir, peço que faça o mesmo.
lo-ve-ly.blogspot.com

Nininho disse...

esse tem algo a ver com o q te enviei! pessoalmente comentaremos sobre fluxo de consciência :*

Jéssica Mirtiany disse...

Pude até sentir o cheiro de tal café...
Quanta lembrança boa você tem... Também lembro-me do café que minha avó fazia (ainda faz).
Sou amante de café e por isso, amei teu blog.
Beijos
sweet--hope.blogspot.com.br

(c)