domingo, 18 de agosto de 2013

Série: (des)Encontros. - Parte 1.

Acordou com a cabeça pesada, sentia uma dor forte, o corpo parecia ter apanhado. Lúcio estava de fato de ressaca. Não lembrava de nada da noite anterior. Não sabia nem como tinha chegado em casa. Ao lado da cama apenas um bilhete que dizia mais ou menos assim:

"Não me espere, eu não volto mais"

Leu várias vezes e ficou tentando entender o que tinha acontecido. Ao acordar até estranhou a ausência dela em sua cama. Estavam aparentemente tão felizes na semana que passou. Tinham planos, a longo prazo é verdade. Mas ainda assim eram planos. Decidiu não pensar tanto e foi à cozinha. Colocou um pouco de água para ferver, tudo o que precisava naquele exato momento era um café bem forte e um abraço (dela).

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Enquanto dirigia seu velho fusca marrom a caminho do trabalho, pensava nas contas à pagar até o fim do mês. O salário parecia nunca dar para tudo, e ainda queria guardar um pouco para aquela viagem tão sonhada desde os vinte anos. Paula dirigia e pensava nos caminhos que tinha vivido até este dia. Lembrou dos amores pensados pra sempre. Cada vez que se apaixonava achava que era pra sempre. Cada vez que se apaixonou se decepcionou lentamente. Pensou em fazer terapia, tentar descobrir qual o problema que havia dentro de si. Se enfrentar como se estivesse discutindo com o espelho. Se conhecer, mais e mais. Adiou a perspectiva de fazer terapia por muito tempo, sabia que seria um gasto a mais. Preferiu guardar todo o dinheiro possível para a tão sonhada viagem, no caminho da liberdade.

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Carla estava cursando o último período na Faculdade de Letras quando conheceu ele. Não fazia nem muito tempo que se conheciam, mas tudo aconteceu de uma forma tão rápida, tão... intensa. Ele era um jovem escritor, tinha lançado seu terceiro romance e já era aclamado pela critica. Nas rodas literárias seu nome era promissor. Carla achava que poderia ter sido um golpe de sorte da parte dele, tão cedo e com tanto reconhecimento, tinha lido seus romances e não achava tão original assim. Mas na verdade só entendeu tudo quando o conheceu. Foi por acaso, numa sexta-feira comum quando tinha saído com os amigos. Estava no velho bar do Carlos, amigo de longa data da turma. (Longa data leia-se desde o primeiro período da faculdade). O Carlos era famoso por servir cerveja com poesia. Cada garrafa estupidamente gelada merecia um poema. Ele recitava de Drummond a Bandeira, e falava deles como se fossem velhos conhecidos e tivessem passado horas a beber no balcão do bar com o Carlos.

O fato é que em uma noite qualquer, de mais uma saída com a turma, Carla só pensava em ir embora, estava cansada da semana, das aulas, da conversa, de tudo. Estava exausta, queria férias e só. Deixou a turma na mesa e foi até o balcão pegar mais uma cerveja, essa iria beber sozinha do lado de fora do bar acompanhada de um cigarro. Após isso pensou em sair a francesa, e no outro dia daria uma desculpa aos amigos pelas redes sociais. Foi no exato momento em que esperava a cerveja no balcão que conheceu ele. Estava sentado, soturno, tomando um whisky e com os olhos parados em algum ponto fixo da rua em frente ao bar.

Carla estava quase indo embora quando o sujeito esquisito e solitário lhe perguntou algo como se fosse um velho amigo seu.

- Qual você prefere, Crepusculário ou Cem Sonetos de Amor?
- Como?
- O Neruda, qual fase dele você prefere?
- Ah... Neruda não me apetece tanto, mas ainda assim ficaria com Crepusculário. - Respondeu ela, achando estranho aquela pergunta. Como ele sabia que ela já tinha lido o Neruda? 
A conversa começou ali, com opiniões aprofundadas sobre a obra do celebre poeta chileno e estendeu-se madrugada a dentro passando por outros nomes da poesia, da cidade em que viviam até poetas perdidos no tempo e na história da humanidade. 

A conversa foi boa para os dois. Ela que já pensava em ir para casa mudou os planos em frações de segundos. Ele que estava fadado a mais uma noite só encontrou nela uma companhia interessante para falar de poesia. Tiveram sorte. Encontros assim, casualmente, não aconteciam todas as noites.

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A água já fervia quando ele se deu conta de que tinha acabado o pó do café. Nesse momento amaldiçoou seu esquecimento quando foi ao mercado durante a semana. Apagou o fogo e se resignou em trocar de roupa e sair em busca do tão necessário pó do café. Colocou uma calça folgada pegou as chaves e saiu. Ainda pensou em ir de carro, mas chegou a conclusão que talvez fosse bom andar um pouco, levar um vento no rosto.

O vento forte de uma manhã de Agosto assanhava seu cabelo e lhe trazia um pouco de frio. Ainda assim a sensação aliviava o medo e a ressaca que estava sentindo. Medo dela nunca mais voltar. Talvez fosse necessário isso tudo, esse distanciamento. Mas o fato é que começou a perceber o que sentia realmente por ela, no exato momento em que acordou e não a encontrou ao seu lado naquela manhã.

Lúcio tentava ficar alheio a tantos pensamentos que bombardeavam sua cabeça, só vinha a mente o Gonzaguinha cantando Um homem também chora. Era incrível a emoção que transbordava daquela voz. A musica se misturou ao seu caminho. E mais uma vez tudo o que queria era apenas um abraço, que cortasse o frio daquele vento e lhe desse segurança suficiente para chorar um pouco. 

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Chegou ao trabalho quase na hora de bater o ponto, tinha se atrasado um pouco por conta do eterno congestionamento no percurso mais rápido que fazia para chegar lá. A cidade parecia parar um pouco mais a cada dia. Paula tinha a sensação que um dia tudo iria parar. Todas as pessoas teriam que descer dos carros, ônibus ou motos e ir andando para seus destino. Aí então a cidade pareceria um cemitério de veículos parados. Tudo isso porque não tinha mais para onde escapar. Tinha certeza, o caos estava próximo.

Enquanto não, pegou um expresso forte na máquina de café e se dirigiu a sua sala tentando lembrar as pendências que tinha deixado na sexta-feira quando no fim do expediente simplesmente desligou o computador e abriu um sorriso por ter largado. Naquele momento sentiu o peso do cansaço da semana inteira, mas sabia que a sexta-feira na verdade estava apenas começando. Não pode recusar o convite para o jantar na casa de sua irmã que tinha insistido tanto durante a semana.

A irmã achava que ela ia acabar ficando pra titia. Fazia mais de ano que tinha rompido o relacionamento e desde então não comentava mais interesse por ninguém. Preocupada armou esse jantar e convidou alguns amigos também. A meses que vinha tentando apresentar os dois, ele era amigo de trabalho do seu marido, e algumas vezes que tinham saído juntos tinha achado ele a cara da sua irmã.

A verdade é que Paula estava muito bem sozinha. Sabia da preocupação e das intenções de sua irmã. Mas por enquanto não tinha interesse em ninguém. Estava concentrando todas as suas energias e expectativas para a tão sonhada viagem que do começo do ano que vem não ia passar. Tinha pensado em tudo, na rota que iria fazer até chegar aos seus destinos. Seria a sua primeira experiência mochilando. Para começar sua vida de mochileira queria conhecer dois ou (quem sabe) três países na Ámerica do Sul.

Tinha se apaixonado por essa viagem desde a adolescência, mas começou a escrever a rota aos vinte anos, e foi adiando por planos aleatórios que apareceram ao começar a namorar ele. Após o fim do relacionamento um dos primeiros pensamentos que teve foi como conseguiu deixar de lado um sonho tão antigo, por causa de alguém? 

Todo mundo que lhe conhecia sabia de longe qual seu autor favorito. Já tinha lido vário livros dele. Mas seus preferidos continuavam a ser O livro dos abraços e As veias abertas da Ámerica Latina, mas o preferido dos preferidos ainda era Dias e Noites de Amor e Guerra. Sim, Eduardo Galeano era seu escritor favorito. E seus escritos lhe inspiraram tanto que o primeiro país que queria conhecer era o Uruguai.

Todo mundo lhe questionava isso, porque os mochileiros da rota da Ámerica do Sul geralmente começavam pelo Peru ou Bolívia. Mas ela era diferente até nisso. E assim ia dormir e acordava todas os dias. Planejando cada centimentro de algo que valeria a pena mais do que qualquer outra coisa. Era o caminho para a liberdade. Para o auto conhecimento. Tinha certeza que valeria a pena, mais do que qualquer terapia.

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*continua no próximo post.

4 comentários:

Ale Carvalho disse...

Eu não entendi tanto ainda. Sempre tenho de reler o texto, mas a história me tocou profundamente por várias partes específicas no todo. Personagens bonitos meu bem. O lúcio, o Carlos, o Drummond, o bar... Fico feliz de estar lendo algo assim. Mais feliz. No domingo que chove a chuva. Choveu mas dentro de mim sorrio. Peixe de rio que desemboca no mar. O aprumo. Ah estou ansioso pela segunda parte... :}

Janayna disse...

ansiosa pela continuação...

Janayna disse...

adoro seus textos.
eu que agradeço a sua visita no infinito!

volte quando desejar.

mg6es disse...

eita, kd vc? dá news pelo muciolgoes@uol.com.br

bjo