domingo, 20 de outubro de 2013

Uníssono.

- O que você vai guardar?
- Como?

- De hoje, qual lembrança você vai guardar?
- Tudo.

- Nada em especial?
- Tudo foi especial.

- Eu vou guardar seus olhos.
- ...

- O brilho deles.
- Eu vou guardar o Tempo.

- Lembra daquela manhã a beira mar?
- Do filme preto e branco?

- Isso.
- Ainda tenho as fotos.

- Ainda tenho as lembranças.
- Foi há dez anos.

- Parece que foi ontem.
- Sempre parece.

- O que você faria, se pudesse?
- Eu pararia o tempo, pararia naquele primeiro dia, naquele silêncio em meio ao som.

- ...
- Naquele silêncio nosso, naquele fim de tarde em que o mundo pareceu parar.

- Você lembra?
- O que?

- Eu disse que ia te levar comigo um dia.
- E eu disse que não.

- E se...
- ...

- Já é tarde?
- Aparenta.

- Eu quero, eu, eu queria.
- Voltar?

- Parar.
- Eu também.

-  O tempo.
- O tempo.

- Sabe, ouvi dizer de um filme, em que a meia-noite o tempo para, e a gente pode ir a qualquer lugar do passado.
- Um filme?

- Isso, um filme. Mas, eu acredito.
- E se a gente voltasse?

- Pensei nisso.
- Seriamos os mesmos?

- No filme não.
- Na vida também não.

- Que pena.
- Tinha que ser.

- E se a gente pedisse à Deus?
- O que?

- Uma nova chance.
- Nova?

- Isso, a gente apagar o passado.
- E começar agora?

- Sim, agora. Agora parece que vai dar certo.
- E porque apagar o passado?

- Pra ser tudo novo, como uma primeira vez.
- Não sei.

- Não sabe?
- Sabe, eu acredito que tudo acontece como tem de acontecer.

- ...
- Eu queria, queria muito que tivessemos dado certo.

- Não parecia.
- ...

- Você vivia falando em acabar.
- Éramos tão jovens.

- Você tinha ânsia de viver a vida.
- Eu queria viver tudo.

- Eu fui desesperadamente apaixonado por cada centímetro seu.
- Eu nunca te esqueci.

- O tempo passou. 
- Eu nunca esqueci.

- E agora?
- Agora eu não sei.

- ...
- ...

- ...
- Acredita em mim.

- Em que?
- Eu quero.

- Pra sempre?
- Sempre.

- Tive saudades.
- Tenho saudades do nosso futuro.

- Eu nunca esqueci.
- Nem eu.

- Posso fechar os olhos?
- Me dá a mão.

 -

De olhos fechados e coração aberto, o tempo parou mais uma vez, para o amor maior do mundo, passar.

-

(faz tempo, mas eu te dei meus olhos para tomares conta, e depois disso eu nunca soube como partir)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Onde tudo se perpetua.

Abriu a caixa antiga, guardada há tanto tempo. Abriu as lembranças de uma vida. Permitiu vir a superfície aquelas lembranças mais esquecidas. Sorriu, chorou, suspirou, refletiu, sentiu saudades. Mais que tudo, pensou ser possível parar o tempo, entrar no tempo, voltar o tempo, casar com o tempo. O mais incrível não era o tempo que passou, era o tempo que ficara. Parecia estar tudo ali tão perto, e ao mesmo tempo tão longe do alcance do toque. Se perguntou várias vezes se era normal sentir saudades ainda. Se era normal sonhar sonhos antigos ainda. Se era normal acreditar em sonhos passados. Todos a perguntavam isso. Todos a achavam esquisita. Ninguém reconhecia o quanto ela era normal. O amor, aquele dos livros antigos, aquele dos filmes mudos, aquele das cartas infindas, aquele das sandálias trocadas, aquele das loucuras infantis. Esse amor aquece e consola. O amor que se alimenta em si mesmo. Que não pede nada em troca. Que foi embora para poder ficar. O amor morreu, renasceu, vingou, nunca deixou, nunca deixará de existir. O tempo é que não vai, nem volta, não mais.

Onde tudo se perpetua. O céu encontra o mar, e se misturam. Tudo se perpetua, a um ponto que nem o tempo consegue mais apagar. 

-

"...vou sair sem abrir a porta..."
movimento dos barcos.jards macalé


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O dia em que aprendeu a dizer adeus.

Ou: o dia em que aprendeu a dizer à Deus.

-

Achou que seria mais um dia comum como qualquer outro. Dia de sol, céu azul sem nuvens. Pessoas nas ruas em seus cotidianos. Ele próprio em seu cotidiano. A vida correndo como um rio. As veias abertas da Ámerica Latina escoando seu sangue. Guardou as chaves de casa no bolso, pegou o guarda-chuva e saiu. Sempre levava o guarda-chuva, mesmo em dias de sol. No meio do caminho o sinal fechado para ele. Parou para esperar o tempo. O tempo parou e ele não viu. Tudo parou, tudo. Os carros, os pássaros e até mesmo o sol. A cidade parou. Ele não viu. Insistia na ideia de rotina. Tudo seguia milimetricamente um roteiro. Tudo tinha ordem. Tudo estava em ordem. Até que com o tempo parado, o caos se fez presente. Ele se perdeu. Perdeu-se de tudo. Sua visão embranqueceu. Não via nada. Via, como a cegueira de Saramago, só que mais claro ainda, se assim fosse possível. Pensou que morrera. Mas não. Sentia a carne e o sangue ainda, o peso. Sentia a vida pulsando, correndo em suas veias abertas no corpo fechado. Sentia vontades opostas e contraditórias até. Sentiu vontade de evaporar. Virar água, compor o mundo. Estar em tudo, em todos os lugares, em todos os corpos. Sentiu vontade de ser mar. Maior. Sentiu a verdade de Deus, na grandeza das pequenas coisas do mundo. Tudo estava ligado, tudo estava junto. Sentiu-se parte do todo. Pela primeira vez. Sentiu.

O sinal fechado, abriu (dessa vez) para os carros. De olhos fechados e sorriso aberto, atravessou a rua e disse adeus.

"...morreu na contramão atrapalhando o tráfego..."