segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O dia em que aprendeu a dizer adeus.

Ou: o dia em que aprendeu a dizer à Deus.

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Achou que seria mais um dia comum como qualquer outro. Dia de sol, céu azul sem nuvens. Pessoas nas ruas em seus cotidianos. Ele próprio em seu cotidiano. A vida correndo como um rio. As veias abertas da Ámerica Latina escoando seu sangue. Guardou as chaves de casa no bolso, pegou o guarda-chuva e saiu. Sempre levava o guarda-chuva, mesmo em dias de sol. No meio do caminho o sinal fechado para ele. Parou para esperar o tempo. O tempo parou e ele não viu. Tudo parou, tudo. Os carros, os pássaros e até mesmo o sol. A cidade parou. Ele não viu. Insistia na ideia de rotina. Tudo seguia milimetricamente um roteiro. Tudo tinha ordem. Tudo estava em ordem. Até que com o tempo parado, o caos se fez presente. Ele se perdeu. Perdeu-se de tudo. Sua visão embranqueceu. Não via nada. Via, como a cegueira de Saramago, só que mais claro ainda, se assim fosse possível. Pensou que morrera. Mas não. Sentia a carne e o sangue ainda, o peso. Sentia a vida pulsando, correndo em suas veias abertas no corpo fechado. Sentia vontades opostas e contraditórias até. Sentiu vontade de evaporar. Virar água, compor o mundo. Estar em tudo, em todos os lugares, em todos os corpos. Sentiu vontade de ser mar. Maior. Sentiu a verdade de Deus, na grandeza das pequenas coisas do mundo. Tudo estava ligado, tudo estava junto. Sentiu-se parte do todo. Pela primeira vez. Sentiu.

O sinal fechado, abriu (dessa vez) para os carros. De olhos fechados e sorriso aberto, atravessou a rua e disse adeus.

"...morreu na contramão atrapalhando o tráfego..."

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