sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O que não tem remédio, mas um dia terá.

O Brasil não mostrou a sua cara. O Brasil não mostrou a que veio. O Brasil não dormiu e não acordou (ainda?).

-

Foto: Diego Nigro - Agência JC Imagens

(Quase) Todos os dias ele faz tudo sempre igual. Paulinho vai com seus primos brincar e trabalhar (por que não?) no Canal do Arruda. Tirar do lixo o dinheiro para ajudar no sustento de casa, e financiar os projetos de uma infância latente. 

Uma foto, uma imagem, uma vida. A imagem que fala mais do que qualquer palavra. Seria possível até mesmo escrever uma fábula. Qual seria o final (feliz)? 
O escritor e jornalista Xico Sá descreveu nesta frase o assombro que a foto causa: "... o menino que nada no esgoto no canal do Arruda é apenas uma foto que assombra a classe média..." (publicado no dia 09/11/13 na crônica O país de Caça-Rato na coluna do referido autor no sitio virtual de um jornal de grande circulação no Brasil)

É apenas mais uma foto que assombra a classe média. Assim como tantas outras imagens, que parecem ser de uma realidade tão distante. Quando na verdade estão a metros, quiçá centímetros de distância. 
Alguém perguntou ao menino qual seu sonho? Alguém perguntou ao menino qual seu medo? Alguém perguntou ao menino onde ele se vê daqui a dez anos?
Importa? Decididamente, importa para alguém isso? Srs Vereadores. Sr. Prefeito, Sr. Governador, Srª Presidenta, vocês conhecem o Paulinho? Qual o lado da moeda: Seria uma honra para quem? Para o Paulinho ou para vocês?

A foto. A imagem. O lixo. A criança. Seria mote para o inicio de várias criticas a sociedade, a razão social. Seria mote até para o que parece não caber. Mas cabe. Cabe tudo nas águas poluídas de uma cidade tão bonita. Cabe o que se mistura. O que não se mistura. O que se separa. Cabe até o carnaval. Cabe a escola. Cabe a saúde. Cabe a família. Cabe o governo. Cabe a natureza. Cabe o capital, e o capitalismo. Cabe Rousseau, Locke, Nietszche, Marx, Lacan, Freud, Gilberto Freyre, Frantz Fanon, Pierre Bourdieu, Josué de Castro e tantos outros. Cabe tudo e ainda assim parece não se explicar.
Cabe o Paulinho. A Ana Luiza (essa que vos escreve). Cabe você.
Essa foto supera o limite das palavras. Cabe tudo. E ainda assim não se explica. Pois essa imagem deveria nunca ter existido (decididamente não é uma crítica ao fotografo). Mas existe. E vai além de assombrar a classe média. Ganhou repercussão mundial e assombrou o mundo. O pior é saber que a violência real e simbólica incutida nas entrelinhas dessa imagem ainda estão bem longe de deixar de existir.
O texto chega ao fim.
A imagem não.


Notícias relacionadas:
http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2013/11/02/no-recife-infancia-perdida-na-lama-e-no-lixo-103887.php
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/11/1366900-criancas-ganham-a-vida-e-brincam-em-esgoto-do-recife.shtml
Vídeos:
http://www.youtube.com/watch?v=u_HFnIxlywU
Poema:
O Bicho - Manuel Bandeira
Música:
 Josué - Pandeiro do Mestre (Homenagem a Josué de Castro)


 - Todas as palavras acima refletem a visão de Ana Luiza Durand. -

Um comentário:

mg6es disse...

caramba, Lua.... não tinha visto. minha indignação, ultimamente, [vide os fatos de sp, df...] tem perdido força...

e vc falou tudo. por onde começar, pra tentar mudar isso?

há luz pra tanto?

bjo.