sexta-feira, 18 de abril de 2014

Deserto - O começo de um conto.

Na pequena cidade de Deserto morava um homem por nome Desalmado e sua filha Doravante num casebre de barro batido, a alguns quilômetros de distância do centro da cidade.

Na propriedade de Desalmado e Doravante tinha uma árvore grande que existia antes mesmo de eles existirem, tinha também um poço e algumas poucas galinhas, uma vaca e um canário do império que fizera seu ninho nos galhos da árvore. O único verde que havia era o das folhas da árvore antiga, e nada mais.

Os vizinhos mais próximos moravam ainda longe, ver um vizinho era quase fazer ou receber uma visita. Viviam assim vestidos de silêncios, dia após dia, noite após noite.

Doravante na verdade não sabia falar, falava, mas não sabia. Isso era o que dizia Desalmado. Dizia que a filha nasceu do silêncio, para o silêncio e com este se casaria.

- Falar é pra quem entende de letras, pra quem tem ciência, aqui nós não temos precisão disso não, o que temos que aprender é silêncio e trabalho. – Desalmado retrucava toda vez que Doravante fazia menção em falar.

Doravante cresceu sem mãe e sem bonecas, na verdade não sabia o que era isso. Brincava desde cedo era com a enxada na roça e quando Desalmado estava longe, brincava de ser árvore, enfiava os pés na terra e balançava os braços abertos imitando os galhos que se movimentavam com o vento.

A casa pequena dos dois quase não tinha mobília, tinha sim duas redes e uma esteira, uma mesa velha com três cadeiras e um fogão de barro aceso com lenha. Era tudo, era nada, mas já era muito. Mais do que isso não precisava, não sentiam falta.

Tradição domingueira, Desalmado acordava antes do sol e ia arrumar a casa, varrendo as folhas e a poeira que quase não tinha. Dizia que queria tudo limpo. Todo domingo Desalmado entrava em transe. Repetia os mesmos gestos, depois de tudo limpo, preparava no fogão uma comida parca, colocava a mesa para três onde sentaria apenas dois.

Doravante nunca perguntou o porquê de todos os domingos serem daquela forma. Entendeu apenas que era um ritual. O ritual da espera por alguém que nunca haveria de chegar. Ela não compreendia essa ausência, não sabia por quem o pai esperava, mas a espera dele era tão fervorosa que a própria ausência se tornava uma presença aos domingos.

A menina aproveitava os domingos longe do centro das atenções do pai para aprender duas coisas: falar e rezar. Quando mais nova acompanhava o pai ao centro de Deserto, iam comprar óleo pra lamparina que iluminava as noites frias de onde moravam. Nessas idas a cidade aproveitava a conversa comprida do pai tentando negociar preços e escapulia para o centro da praça, onde ficava o cruzeiro e mais a frente à igreja.
Era dia de novena quando ouviu uma reza pela primeira vez, como não conhecia tantas palavras, ficava atenta aos sons, e achava então que reza era música. Para ela tinha toda uma preparação, onde as mulheres cobriam os rostos, juntavam as mãos e ficavam passando o terço entre os dedos. Isso fascinava-a.

Desalmado atento e desatento olhava a filha petrificada acompanhando a novena, resolveu suas coisas mais cedo nesse dia, e colocou-se no caminho de casa observando os passos de Doravante que ia à sua frente.
- Coisa mais besta – resmungava ele que nunca fora afeito a essa coisa de rezas. Resmungava cada vez mais alto, o que chamou a atenção de Doravante que intrigada virou-se a fitar o pai.

- Reza não serve pra nada, menina. Só pra botar idéia na cabeça de gente que não tem o que fazer. É preciso trabalho. Trabalho e silêncio. Isso sim é reza. – Sentenciava ele, na tentativa de ensinar a filha sobre as coisas da vida.

- De hoje em diante fica proibida essa historia de reza em casa nossa. – declarou por fim.

Doravante andando mais a frente deixou cair uma lágrima apenas, que quase inundou o chão seco de terra batida onde pousou. Rezar era um segredo, um mistério, que cada vez mais ela queria desvendar. Decidiu aprender sozinha, longe dos olhos atentos do pai.