domingo, 29 de junho de 2014

Imensidão.


"Na terra em que o Mar não bate, não bate o meu coração"
Escrito originalmente em algum dia perdido de 2012.

O dia o qual o conhecera fora um divisor de águas em sua vida. Conhecê-lo foi como nascer. É como se toda a vida não tivesse sido vivida até aquele momento. Todas as coisas que aconteceram até então, agora parecia que foram apenas o prenúncio, o prólogo de uma história de verdade, a expectativa. A vida se iniciou numa manhã morna, de um dia que nunca será especificado. A primeira lembrança que tinha era a da imensidão. Todas as vezes que tentava relembrar o inicio se deslumbrava como no primeiro dia com a imensidão. No inicio do inicio foi difícil achar palavras. Nenhuma descrevia a beleza que entrava pelos olhos e pelo corpo todo numa maré de sinestesia. Nunca, nem em seus mais desvairados sonhos infantis, nem em toda a sua imaginação sobre aquilo que os antigos contavam, nunca havia conseguido chegar perto do que aquilo realmente era. Nos dias antigos, antes de sua vida ser fundada, nunca entendera uma palavra que muito ouvia, a palavra era Deus. Esta foi a primeira palavra que conseguiu formular ao abrir os olhos no primeiro dia de sua (nova) vida. Foi a primeira palavra que compreendera, a primeira que aprendera, no novo primeiro dia de sua vida, no único de fato. Era o primeiro dia, mas sentia que a partir de agora poderia morrer, e isso não doía ou atemorizava mais. A imensidão da primeira visão preenchera sua alma de beleza, e a beleza que entrou pelos olhos se expandiu. Fechou os olhos com medo de cegar. Mas na verdade emudeceu. O som que vinha de lá era a mais bela melodia que já havia escutado. 
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Ninguém sabe dizer quanto tempo ele passou em silêncio contemplando a imensidão do mar. 
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Uns dizem que o pescador tem dois amores, um fica na terra e o outro no mar.
Para ele só havia um, e não cabia no seu corpo ou nos seus olhos. Tudo o que queria era se perder lá dentro, virar terra, água e sal. Ser mar, e só.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

E vira tempestade.

O céu desabava sobre a cabeça de todos.
O céu parecia cair.
O céu branco leitoso, impedia de ver o sol, mas ele estava lá.
Dias líquidos e brancos que se misturam.
Tudo parece infinitamente parado como numa imagem.
Mas até as fotos tem movimento.
Mas agora era como se o mundo tivesse parado.
Agora não, isso faz tempo.
O tempo que não passou.
Nem passará.
Ela ficou parada vendo a chuva.
A chuva que desistiu de ser apenas, e virou então.
Tempestade.

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"No meio do temporal, ninguém é Rei meu senhor, Ninguém é Rei meu senhor, Ninguém é Rei, Ninguém é Rei mas eu sou"

domingo, 22 de junho de 2014

Chuva que cai.

Era noite e a chuva tomava a rua, caía em gotas miúdas, depois grandes gotas, depois desabava. Fazia frio por fora antes de entrar na chuva. A chuva veio fria por fora, mas aquecia e limpava a alma.
Andou por ruas procurando a casa 138. Todas as ruas pareciam iguais, tinha uma casa verde limão, tinha uma casa grande, tinha ladeira. Mas não tinha a casa 138. Tinha a casa 137. Parecia brincadeira. Mas não era. Andou na chuva, nas ruas desertas, e começou a achar que tinha entrado em um portal para outro tempo no mundo.
Sorriu e agradeceu a chuva fina que caia e molhava. Não tinha mais medo. Também era água. Era água que caía nela, e fazia parte dela, derramava ela, e fazia-a seguir.
Encontrou no meio do tempo parado a poesia do desencontro. Querendo achar não acharia. Deveria abandonar a crença e a certeza das coisas vãs. Se acreditasse no impossível acharia a casa 138 e um outro mundo que não conhecia.
Tudo era chuva. Pensou que assim o mundo tivesse sido criado. A partir da chuva. Das gotas que caiam do céu. Pois tudo foi apenas céu antes. Depois chuva. Depois terra e imensidão de água.
Tinha água em tudo.
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- Que Deus você vê na chuva? – Perguntou ele
Um pouco pensativa, mas disse: - Eu vejo Oxum, e agradeço – disse ela feliz.
Seguiram seus rumos separados, ambos sob a chuva. Cada um com seu Deus. Sua Deusa, diferente do outro. Cada um com seu sentido e sentimento. Mas era a chuva, a mesma chuva de todos os santos.
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Tempo assomou no meio da chuva. Ela viu uma mulher andando com uma sombrinha. E a mulher andava por todas as ruas, sempre a frente, sempre em frente. Seguindo.
Ela não, ela não tinha sombrinha. Molhou-se toda. Banhou-se de chuva e sereno. Sereninho.
A chuva veio foi pra lavar-lhe o sentimento que insistia em ficar. Lavar-lhe as tristezas e dores de um passado sempre tão distante. Veio para acalentar.  A chuva veio fecundar seu Tempo. Veio mostrar que tudo cresce, tudo dá, tudo segue.
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“...eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva, pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar...”

terça-feira, 17 de junho de 2014

Mesa 21.

Entre cafés é livros olhava o Rio que corria mais a frente. Mais que isso, olhava as pessoas que passavam na Rua. Olhava o céu que ameaçava chover. Olhava o presente, o passado, mas não conseguia pensar no futuro.
Ali naquele mesmo café, naquela mesma mesa, esteve tantas e tantas vezes com tantas pessoas. Todos se foram, ela permanecia. Era uma permanência no tempo e espaço que fazia tudo se misturar, coisas como as lembranças, as vozes e os sons.
Ali naquele exato lugar, chorou, sorriu, sonhou, ouviu, conversou, pensou, discutiu, esperou, cansou, até dormiu. Sentar ali era como parar o tempo. Aquele café já nem era o mesmo, até o garçom habitué já tinha se ido. Mas ela sentava ali e logo vinha seu café preferido, todos sabiam.
Ali ela escreveu, em dias chuvosos e ensolarados. Ali ela leu seus textos e sua alma para outrem. Ali na esquina da confluência de ruas e pontes. Ali ela podia sentar e ser ela apenas.
Com o café cheio ou vazio, aquela mesa estava sempre reservada. Esperando ela chegar.