domingo, 22 de junho de 2014

Chuva que cai.

Era noite e a chuva tomava a rua, caía em gotas miúdas, depois grandes gotas, depois desabava. Fazia frio por fora antes de entrar na chuva. A chuva veio fria por fora, mas aquecia e limpava a alma.
Andou por ruas procurando a casa 138. Todas as ruas pareciam iguais, tinha uma casa verde limão, tinha uma casa grande, tinha ladeira. Mas não tinha a casa 138. Tinha a casa 137. Parecia brincadeira. Mas não era. Andou na chuva, nas ruas desertas, e começou a achar que tinha entrado em um portal para outro tempo no mundo.
Sorriu e agradeceu a chuva fina que caia e molhava. Não tinha mais medo. Também era água. Era água que caía nela, e fazia parte dela, derramava ela, e fazia-a seguir.
Encontrou no meio do tempo parado a poesia do desencontro. Querendo achar não acharia. Deveria abandonar a crença e a certeza das coisas vãs. Se acreditasse no impossível acharia a casa 138 e um outro mundo que não conhecia.
Tudo era chuva. Pensou que assim o mundo tivesse sido criado. A partir da chuva. Das gotas que caiam do céu. Pois tudo foi apenas céu antes. Depois chuva. Depois terra e imensidão de água.
Tinha água em tudo.
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- Que Deus você vê na chuva? – Perguntou ele
Um pouco pensativa, mas disse: - Eu vejo Oxum, e agradeço – disse ela feliz.
Seguiram seus rumos separados, ambos sob a chuva. Cada um com seu Deus. Sua Deusa, diferente do outro. Cada um com seu sentido e sentimento. Mas era a chuva, a mesma chuva de todos os santos.
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Tempo assomou no meio da chuva. Ela viu uma mulher andando com uma sombrinha. E a mulher andava por todas as ruas, sempre a frente, sempre em frente. Seguindo.
Ela não, ela não tinha sombrinha. Molhou-se toda. Banhou-se de chuva e sereno. Sereninho.
A chuva veio foi pra lavar-lhe o sentimento que insistia em ficar. Lavar-lhe as tristezas e dores de um passado sempre tão distante. Veio para acalentar.  A chuva veio fecundar seu Tempo. Veio mostrar que tudo cresce, tudo dá, tudo segue.
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“...eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva, pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar...”

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