quinta-feira, 12 de novembro de 2015

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Estive na esquina do mundo. Onde o tempo se torna liquido, o vento se torna solido, o coração evapora, e a saudade chove em gotas miúdas.
Estive parada na praça do Tempo, na Times Square da metrópole recifense, onde tudo se encontra, e todos seguem o mesmo caminho.
Estive vagando por corredores infindos. Onde tudo se mistura e o passado vira futuro, e o futuro vira presente. Eu vi o Recife de Carneiro Vilela, com a emparedada da Rua Nova, o sogro de Favais debruçado na Rua da Aurora, num casarão aceso de outra época. Vaguei na madrugada empoeirada no largo da Rua dos Pescadores, e segui para o patio da Igreja de São José do Ribamar. Eu vi aquele que construiu a parede ser conduzido enceguecido na carruagem misteriosa. Eu vi Clotilde sofrendo a sua ultima sina.
Eu fui Clotilde. Mas nunca amei um certo Leandro Dantas.
Eu vi tudo isso, sentada a beira do Rio que corre em minha alma. Capibaribe, Capiberibe de Manuel Bandeira e de seu Avô.
Da Rua do Fogo vi Divino sair cambaleando do Beco do Veado Branco e cair aos pés de São Pedro, morto depois de quarenta e duas facadas. Vi as prostitutas da Rua Esquerda e os Meninos da Beira do Cais, pranteando o seu corpo numa quarta-feira de cinzas com céu azul, em um tempo que não haveria de ser especificado.
Vi tudo isso dentro e fora de mim, no centro de tudo e no meio do nada. No Recife que habita a minha alma.
Ainda carrego dentro do peito todos os sonhos do mundo, e um pouco de alguém que nunca existiu.

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