sábado, 28 de novembro de 2015

Sobre sentir (saudades).

Chove em gotas miúdas do lado de fora da casa do Tempo. Do lado de dentro vejo minha vida inteira passando como um filme. Um filme que tem começo  e meio, mas nunca parece chegar o fim. Tenho a alma livre e solta, e sei que posso ir embora a qualquer tempo, eu não estranharia, morrer não dói, e é sim a única certeza que existe.
No filme da minha vida vejo tudo. Até o que eu não vivi. Repito mil vezes os momentos felizes que passei em dias de sol aberto na beira do mar. Éramos crianças felizes, apesar de tantos pesares. A vida era simples e se sorria.
Quero gravar todos os detalhes dos dias que passei junto a ela, daquelas tardes mornas em que eu brincava no seu jardim e ela sempre me chamava para enfiar pela milésima vez a linha na agulha da máquina, que sua visão de tão gasta, não chegava mais para isso.
Quero morar novamente naquela casa amarela da minha infância, e ficar para sempre naquele abraço apertado, naquelas conversas no terraço, de quando eu ouvia de sua juventude distante no interior do Ceará.
O mundo me é estranho sem você aqui, mas continuo, caminhando devagar e sem pressa, um dia depois do outro, registrando na alma as coisas belas que vejo pelo caminho, sentindo que tu as coloca para mim.
Se por ventura ou sina eu chegar a tua idade, saberei um pouco, só um pouco, de tudo o que tu sabia e guardasse, do alto dos teus oitenta e nove anos, eu, aqui com meus vinte e cinco acho que já vivi tanto, mas sei que tenho que seguir.

"...E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza..."

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