sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pequeno Mapa do Tempo.

Entre o som e o silêncio encontro a metade de mim que nunca existiu. Aquela metade tão falada, tão idealizada, tão grande e tão pequena, aquela metade de mim que não há de existir. Porque não sou feita de metades. Descobri há muito tempo o quanto sou inteira, e por ser tão, sou sertão, sou seca, solo rachado, e ao mesmo tempo a alegria que brota da chuva miúda que cai trazendo novas esperanças. Aprendi a nascer de novo todos os dias, e como me disse Gabo outro dia, "los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga otra vez y muchas veces a parirse a sí mismos"*.
Meu pequeno mapa do Tempo, é feito de todas as histórias que me chegaram, e que construí ao longo dos anos. Porque não sou feita de átomos, sou cosida de histórias, músicas e fotografias. Sou, sem saber o que poderia ter sido, mas ainda assim sou, a intempérie e a bonança, a luz e a escuridão, o abismo e a corda bamba.
Agora faz sol lá fora, e milhares de pessoas seguem seus cotidianos, enredadas nas tramas e nos dramas de cada individualidade, e eu sou todas essas pessoas juntas. Há muito tempo, fui cento e cinquenta e uma mil pessoas ao mesmo tempo, hoje sou todas as pessoas do mundo, e mais do que isso, eu sou ninguém.


"eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão [...] faca de ponta e meu punhal que corta e o fantasma escondido no porão"

A questão é que esta porta, eu já escancarei há muito tempo.


* El Amor en los Tiempos del Colera - Gabriel Garcia Marquez
Pequeno Mapa do Tempo: https://www.youtube.com/watch?v=cUjXiV6Fnwc

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